terça-feira, 23 de março de 2010

Kurosawa "faz" cem anos...

... porque pessoas como ele nunca morrem!



Do Nassif.
O cineasta Akira Kurosawa nasceu em Tóquio em 23.03.1910. Antes de se dedicar ao cinema, foi pintor e ilustrador – e bom ilustrador, a ponto de, anos depois, ele mesmo desenhar cenas diversas de seus filmes, especialmente paineis sobre batalhas.

Quando tinha 18 anos, Kurosawa foi surpreendido pelo suicídio de uma de suas irmãs, quatro anos mais velha, que trabalhava como “benshi” (narradora de cinema mudo) e não resistiu à extinção de sua profissão. Superada a crise (mas não a ‘compulsão’, que quatro décadas adiante irromperia), tempos depois foi contratado como assistente de direção; estreava, enfim, no cinema, que exercitou até o fim, em setembro de 1998.

Ligado em história, no perfil dos samurais, na busca da verdade e na honra do ser humano, dirigiu mais de trinta filmes. Entre 1950, quando ganhou o Leão de Ouro do Festival de Veneza com “Rashomon”, e 1990, em que foi homenageado com um Oscar pelo conjunto da obra, recebeu vários outros prêmios em festivais como os de Berlim e Cannes, em face de filmes consagrados, com destaque para “Dersu Uzala”, “Os Sete Samurais”, “Ran” e “Kagemusha, a Sombra de um Samurai”.

Abril Notícias.
Filho de militar, Akira Kurosawa queria ser pintor. Para financiar seu sonho, começou a trabalhar na empresa de cinema Toho, como assistente. Em 1943, estreou na direção com "A Saga do Judô". Essa primeira parte da carreira é marcada pelos temas contemporâneos. "Juventude sem Arrependimento", "O Anjo Embriagado", "Duelo Solitário" - conhecido como "A Luta Solitária" -, "Cão Danado".

Em 1951, Kurosawa realizou "Rashomon" e sua história de samurais recebeu o Leão de Ouro em Veneza. O Ocidente descobria, assim, o cinema japonês. No ano seguinte, o diretor voltou aos temas contemporâneos com "Viver". Em 1954, voltou a Veneza com "Os Sete Samurais" e recebeu, na ocasião, um Leão de Prata, correspondente ao prêmio do júri, compartilhado com os cineastas Federico Fellini ("A Estrada da Vida"), Elia Kazan ("Sindicato de Ladrões") e outro grande diretor japonês, Kenji Mizoguchi ("O Intendente Sansho").

Dostoiévski e Shakespeare

Nos anos 1950, enquanto Kurosawa conquistava a consagração internacional, no Japão ele provocava polêmica e recebia duras críticas. Alguns diziam que ele tinha se tornado ocidental demais. Suas referências eram a literatura ocidental - os russos, Gorki, e Dostoiévski, Shakespeare e Hollywood. A fase final foi marcada por obras testamentais - o ecológico "Dersu Uzala, Kagemusha, a Sombra do Samurai"; "Ran", que se baseia no "Rei Lear"; e "Madadayo". Kurosawa ganhou os maiores prêmios do mundo - a Palma de Ouro em Cannes, o Oscar de Hollywood. No Japão, foi chamado de Imperador. Em meados dos anos 1960, ele rompeu com seu ator fetiche, Toshiro Mifune. Mestre do paradoxo e do movimento, Akira Kurosawa morreu em 1998, aos 88 anos, consagrado como um dos maiores artistas do cinema mundial. As informações são do Jornal da Tarde.

Aqui, o arquivo digital Kurosawa.
Em japonês.
Mas dá pra fuçar mesmo assim!
Usa a tradução do Google.
Ajuda...

Capa do meu filme favorito:

sábado, 20 de março de 2010

sexta-feira, 19 de março de 2010

Big Mac. Caro o suficiente?

Do UOL.

Big Mac brasileiro é o terceiro mais caro do mundo.
De acordo com o Big Mac Index, medido pela revista britânica The Economist, o sanduíche nos Estados Unidos custa US$ 3,58, o que confere ao país a oitava posição entre os lanches mais caros do mundo.

O Brasil não está incluído na lista divulgada nesta quarta-feira (17). Porém, tendo em vista que o sanduíche no país custa R$ 8,75, seu preço em dólares fica em US$ 4,97 (com base na cotação de fechamento em 16/03), atrás apenas da Noruega (US$ 6,87) e da Suíça (US$ 6,16).

Depois do Brasil, aparecem na lista a Zona do Euro (US$ 4,62), o Canadá (US$ 4,06), a Austrália (US$ 3,98), a Hungria (US$ 3,75) e a Turquia (US$ 3,71).


Bem que poderia ser o mais caro. Assim, talvez, as pessoas comessem menos esta porcaria...

terça-feira, 16 de março de 2010

O avanço e o retrocesso. Aqui e lá.

O Brasil quase não consegue andar. Cada vez que um passo é dado, vem os veeeelhos #@*& de sempre e puxam a corda com toda a força pra trás. Ás vezes eles até se antecipam e colocam a corda na frente, que é pra ver se ele cai de uma vez. Mas ainda bem que o Brasil tem um lado teimoso, que não se entrega, que não desiste. E graças a esse lado, um pouquinho a gente anda. Agora é o melhor momento pra ver os #@*& em ação! Vai no 10, no 12, no 5, vai em qualquer um, compra os correios e globos e seus similares nazistóides (aqui tem a ZH, bem bom) que a canção é uníssona! Quase um coro!
Mas a gente que ainda acredita fica bem faceira de ver um dos nossos de cabeça erguida, falando firme, dando exemplo, sendo "o cara" em qualquer lugar.
Lá no Oriente Médio qualquer punzinho é terremoto.. e ele vai lá e diz que o muro é ruim. Mas aqui a preocupação é puxar a corda. Então vamos lá... eu vou fincar o pé pra ver se não puxam mais, de novo, como sempre...
E falando em Oriente Médio, vai aí um texto bem legal sobre o assunto! Do Vi o Mundo.
Hasta!

Fisk: Leituras para entender o Oriente Médio
Para entender o Oriente Médio… tente algumas leituras


13/3/2010, Robert Fisk, The Independent, Londres

A maior dificuldade para escrever com consciência histórica, é que a história não terminou. Seja como for, se quiser entender a Al-Qaeda, por exemplo, tente o parágrafo seguinte:

“O homem do deserto não merece crédito por sua fé (…). Ele alcançou essa intensa condensação de si mesmo em Deus porque fechou os olhos ao mundo, e a todas as complexas possibilidades latentes nele, que só o contato com a riqueza e as tentações pode trazer à tona. Alcançou uma fé confiável e poderosa, mas em campo tão estreito! Sua experiência estéril roubou-lhe qualquer compaixão e perverteu sua generosidade humana para com a imagem da perda na qual se escondeu (…). Vem daí um gozo na dor, uma crueldade que vale mais para ele que quaisquer bens. (…) Encontrou luxúria na abnegação, na renúncia, na autocontenção. Fez a nudez da mente tão sensual quanto a nudez do corpo. É possível que tenha salvo a própria alma, e sem risco, mas num duro egoísmo.”

É de T.E. Lawrence, em Seven Pillars of Wisdom: a Triumph (1926) [Os Sete Pilares da Sabedoria: Um Triunfo, Rio de Janeiro: Record, trad. C. Machado] – e que perfeição! Sempre lembro essa passagem quando assisto aos videoteipes de Bin Laden. O campo estreito. A abnegação. A crueldade. Não concordo necessariamente com Lawrence, mas em trechos como esse, percebo-me refletindo cada vez mais profunda e intensamente sobre suas palavras.

Digo isso porque várias vezes por ano leitores do Independent pedem-me que sugira “uma lista de leituras” de livros em inglês sobre o Oriente Médio. Não é fácil. A maior dificuldade para escrever com consciência histórica sobre o Oriente Médio, é que a história não terminou. A guerra continua. Os dois “lados” – de fato há muitos, muitos lados – produzem narrativas conflitivas. E não aceito a ideia de que se possa oferecer uma lista equilibrada de livros. Há a versão de Israel. Há a versão dos árabes. Há a versão alucinada dos norte-americanos etc. O Oriente Médio é questão de injustiça. Quem contará melhor a história?

No que tenha a ver com a disputa árabes-israelenses, os dois incomparavelmente melhores livros são The Arab Awakening: the history of the Arab National Movement (Londres, 1938) de George Antonius, e The Gun and the Olive Branch (1977), de meu colega e amigo David Hirst. Antonius escreveu em 1938; Hitler já estava no poder há cinco anos – mas dez anos antes de os palestinos serem ativamente assaltados. – E escreveu que:

“O tratamento imposto aos judeus na Alemanha e em outros países europeus é uma desgraça para os autores e para a civilização moderna. A posteridade não perdoará nenhum país que não assuma a sua parcela de sacrifícios para aliviar o sofrimento e o desespero dos judeus. Impor toda a carga à Palestina árabe é miserável movimento de fuga ao cumprimento do dever moral que cabe a todo o mundo civilizado, além de ser moralmente vergonhoso. Nenhum código moral pode justificar a perseguição de um povo, como meio para aliviar a perseguição de outro. A cura para a expulsão dos judeus da Alemanha jamais será a expulsão dos árabes, de sua própria terra (…).”

Foi o primeiro sinal verdadeiramente eloquente do que estava para acontecer, e Hirst completou a narrativa das muito acuradas predições de Antonius, o primeiro autor, parece-me, a enfrentar o romance-lixo Exodus, com o qual Leon Uris agraciou o Estado judeu – para deleite de Ben Gurion, embora devesse ter pensado melhor –, ao desconstruir o “terrorismo”, sem romantizar os refugiados palestinos e seus movimentos de resistência.

Nesse mesmo contexto, deve-se lembrar o trabalho dos “novos historiadores” de Israel, que criaram uma narrativa complementar. Benny Morris foi o mais proeminente pesquisador israelense a provar que foi intenção de Israel expulsar os palestinos e arrancá-los de suas casas às dezenas de milhares em 1948. O fato de que, depois, Morris não tenha feito outra coisa além de reclamar que a limpeza étnica não tenha sido suficientemente eficaz e ampla não diminui a importância de seu trabalho anterior, seminal.

Dizem que F. R. Leavis, certa vez, iniciou um parágrafo com “Como qualquer leitor-que-preste de poesia sabe…”. Então, acho que podemos dizer que “qualquer leitor-que-preste” de livros sobre o Oriente Médio deve ler Edward Said. Um de seus melhores livros, aliás, é sobre música. Mas Orientalism [Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente. São Paulo: Companhia das Letras, 2003] sempre será necessário em qualquer lista. Said fez filosoficamente e historicamente, pela narrativa do Oriente Médio, o que Antonius fez politicamente. Não estou subestimando o trabalho político de Said – embora vários críticos tenham anotado que Said talvez não tenha levado n a devida consideração a vasta literatura “orientalista” que brotou na Itália, na Alemanha e na Rússia. Mas não o estou condenando como o condenaram Al Dershowitz e sua gangue.

A União Soviética, claro, sempre teve problemas com o Profeta, porque Maomé foi comerciante e burguês. Jesus Cristo, pelo menos, nasceu em família de trabalhador, embora não se saiba se José, carpinteiro, possa ser dito Stakhanovita recomendável. Mas devo dizer que o fato de Maria e José terem tido de viajar até Jerusalém para pagar impostos é absolutamente otomano, de tão burocrático. E que nenhum hotel aceitasse hospedar uma mulher grávida, sim, tem sabor de Oriente Médio. Mas, não, não! Não vá eu, agora, virar “orientalista”!

E há também esse brilhante pensador e jornalista libanês, o saudoso Samir Kassir – muito saudoso, porque foi assassinado há quase cinco anos, e a última coisa que vi dele foi o sangue ao lado do carro explodido – cuja monumental história de Beirute, em inglês, estará nas livrarias esse ano (admito: estou escrevendo o prefácio).

Tudo que você algum dia quis saber sobre Beirute – e muito, receio, que você preferiria jamais saber – está no livro de Kassir. Ele lembra como, há cem anos, um jovem capo di capo cristão – um Costa Paoli – tinha o hábito de beijar o rosto dos cristãos libaneses recém assassinados, antes de que fossem sepultados. Era homem elegante – “uma rosa na lapela e lenço perfumado no bolso do paletó”, segundo o professor Edward Atiyah –, e um gângster; vingava-se dos muçulmanos. Naqueles dias, havia milícias e grupos armados de apoio às comunidades cristãs e muçulmanas, e às vezes, havia briga de rua.

Exatamente como o meu colega David McKittrick descobriu que, na Belfast do século 19, as primeiras lutas de rua ocorreram nos mesmos locais onde aconteceram as batalhas dos anos 70s, assim também já se sabe que, na Beirute do século 19, os conflitos entre as milícias armadas aconteceram nos mesmos locais onde eclodiria a Guerra do Líbano de 1975.

Kassir é o primeiro autor cujo único personagem humano é uma cidade, em cuja bela e terrível história vêem os homenzinhos girando em rodas de tortura. Eu não sabia que o subúrbio onde reina o Hizbollah, Ouzai, recebeu esse nome para homenagear o velho divino Imã Ouzai; ou que o Partido Social Nacionalista Sírio – uma tediosa sociedade pan-árabe – inspirou-se, para criar sua bandeira vermelha, branca e preta (com penas cruzadas), nos nazistas; ou que o palavrão (em árabe) sharmut ou sharmuta – “puta” – e que hoje se usa a torto e a direito, surgiu da tão mais gentil e suave “charmante”, francesa. Lawrence e demais autores, por favor, anotem.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Em defesa do sistema de cotas

A Seppir tem que dar explicações para o DEM...

A Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir), com o apoio do Serviço Federal de Processamento de Dados (Serpro), realiza hoje (25) videoconferência para discutir as cotas raciais na Universidade de Brasília (UnB). Será das 9h às 12h.
O sistema de cotas da universidade é questionado pelo Democratas, que entrou com uma ação – Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental – no Supremo Tribunal Federal. Por causa da polêmica envolvendo o assunto, o Supremo vai realizar, na semana que vem (3, 4 e 5 de março), audiência pública para subsidiar o relator da matéria, ministro Ricardo Lewandowski.

Da Agência Brasil

Por coincidência, li um trecho de um livro que falava, entre outras coisas, sobre a nossa forma inconsciente de reagir às coisas. O livro é "Blink: a decisão num piscar de olhos", de Malcolm Gladwell e o autor se refere ao Teste de Associação Implícita (IAT), utilizado por psicólogos no estudo das "associações inconscientes". Este tipo de teste acontece colocando conceitos diversos em colunas diferentes e algumas palavras vão aparecendo enquanto aquele que faz o teste tem que, rapidamente, (ou intuitivamente) colocá-las em uma das colunas. Eles tb associam conceitos, deixando o teste mais complexo, como o exemplo que o autor coloca no livro. Imagine uma coluna com os conceitos "masculino" e "carreira" e a outra com "feminino" e "família". Aí as palavras vão aparecendo, tipo: Lisa, Lavanderia, Empreendedor, Capitalista, Lar, etc... A pessoa vai colocando em uma das colunas. Quando eles trocam os conceitos de algumas colunas, as pessoas geralmente sentem mais dificuldade, como colocando "masculino" com "família" e "feminino" com "carreira". Daí, na hora de colocar rapidinho nas colunas as palavras, dá um nó, devido às nossas associações inconscientes, geradas pelas informações que recebemos desde bebês. Dentre os vários tipos de testes, encontrados no site https://implicit.harvard.edu/implicit/portugal/, o autor revela que um deles, o Race IAT, provocou maior incômodo. Segundo Gladwell, "no início do teste perguntam quais são suas atitudes em relação a negros e brancos. Respondi, como estou certo de que vocês o fariam, que considero as raças iguais", porém, com sinceridade, o autor revela que teve maior dificuldade na hora de relacionar palavras como "glorioso" ou "maravilhoso" na coluna do conceito "bom" quando este estava ligado ao conceito "Afro-Americano", apesar de não sentir nenhuma dificuldade na situação contrária (bom com Europeu Americano). Ele se diz incomodado, até porque é descendente de jamaicanos! Ele conclui: "então o que significa isso? Será que significa que sou racista, um negro que se odeia? Não exatamente. Significa que nossas atitudes em relação a coisas como raça ou sexo operam em dois níveis. Em primeiro lugar, temos nossas atitudes conscientes. São coisas que optamos por acreditar. (...) Mas o AIT mede outra coisa. Ele mede nosso segundo nível de atitude, nossa atitude racial no nível inconsciente - as associações imediatas e automáticas que surgem antes de termos tempo para pensar. Não escolhemos deliberadamente nossas atitudes inconscientes. (...) O aspecto perturbador a respeito do teste é que ele mostra que nossas atitudes inconscientes podem ser totalmente imcompatíveis com nossos valores conscientes declarados (pp. 81 a 93). Recadinho para o DEM e para todos nós!!! Para complementar, posto um triste exemplo desta realidade.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Modelo critica a indústria da anorexia

Da UOL.

Coco Rocha: O meu ponto de vista sem censura
COCO ROCHA
Do blog Oh So Coco




















Tem havido uma certa comoção em relação aos artigos que saíram sobre mim no “New York Times” e no “New York Daily News”. Como apenas algumas declarações minhas foram publicadas, acho necessário que eu expresse o meu ponto de vista corretamente, sem edições externas.

Sou uma modelo de 21 anos, 15 cm mais alta e dez manequins menor do que a mulher comum americana. Mesmo assim, em algum universo paralelo, sou considerada “gorda”… Este foi o tema de uma grande discussão esta semana e a notícia que saiu por aí foi: “Coco Rocha é muito gorda para as passarelas”.

Seria este o caso? Não. Ainda trabalho e sou requisitada como modelo. Na realidade, eu me vejo mais ocupada do que nunca. Nos últimos anos, eu não ganhei uma grande quantidade de peso, apenas dois centímetros aqui e ali, como aconteceria com qualquer mulher que sai da adolescência.

Mas este assunto do peso das modelos é, e sempre foi, uma preocupação minha. Há algumas decisões morais que parecem muito simples para nós. Por exemplo, não explorar o trabalho infantil e não aumentar o fator de dependência nos cigarros. Quando estilistas, stylists ou agentes forçam crianças a tomarem medidas que levam à anorexia ou a outro problema de saúde para que continuem na profissão, eles estão pedindo para que o público ignore a sua consciência moral a favor da arte.

Claramente, todos nós vemos quão moralmente errado é um adulto convencer uma menina de 15 anos já magra de que ela, na verdade, está gorda demais. É indesculpável que um adulto exija que uma menina perca, de maneira não natural, um peso vital para que seu corpo continue funcionando corretamente. Como pode qualquer pessoa justificar uma estética que reduz uma mulher ou criança a uma magreza esquelética? Isso é arte? É claro que a estética da moda deve embelezar a forma humana, não destruí-la.

Há divergências na indústria a respeito disso. Apesar de haver aqueles que não levam em consideração o bem-estar da modelo, eu tive a honra e o privilégio de trabalhar com alguns dos melhores estilistas, editores, stylists, fotógrafos e agentes, que respeitam da mesma maneira tanto as modelos novas quanto as consagradas. Sei que há muitos outros por aí, com quem eu não trabalhei, que também concordam comigo neste assunto.

O CFDA (Conselho dos Estilistas da América) tem tentando ao máximo corrigir esta questão. Alguns dias atrás, em sua reunião anual, viram todos que estavam na sala em acordo a favor da mudança do “sample size” [o tamanho das peças dos desfiles e mostruários] e da contratação de modelos apenas acima dos 16 anos. É ótimo ver quantos corações estão no lugar certo, porque nós temos de fazer estas mudanças para a próxima geração de meninas.

Como uma mulher adulta, eu posso tomar decisões por mim mesma. Posso decidir que não vou permitir que eu seja degradada em um casting – marchar de calcinha e sutiã com um grupo de jovens garotas, ser apalpada, espetada e cutucada como gado. Eu consegui escapar desse tratamento, porque já tenho uma carreira consolidada como modelo e sou adulta... mas e as meninas novas e aspirantes a modelo?

Nós precisamos de mudanças. Eu ia preferir que não houvesse meninas trabalhando com menos de 16 anos, mas, se este for o caso, adoraria ver as adolescentes sendo acompanhadas por seu tutor aos castings, desfiles e sessões de fotos. O CFDA criou um código para seus membros, e eu adoraria ver toda a indústria seguindo-o. A sociedade legisla um monte de coisas – a proibição do uso de esteróides nos esportes é um exemplo –, é apenas lógico que haja regras de conduta para manter a indústria da moda saudável.

No passado, modelos se pronunciaram sobre o assunto, e foram acusadas de apenas falar algo porque suas carreiras estavam à beira da extinção. Este não é o meu caso. Falei sobre isso pela primeira vez há uns dois anos, no auge do que uma modelo consideraria a carreira ideal, e de fato houve uma reação – aqueles que mais desrespeitavam o assunto, de repente, chamaram-me para trabalhar para eles! Isso foi uma tática de relações públicas e eu não estava pronta para cair nela. Disse: “Não, vamos ver daqui algumas temporadas. Se mudarem, aí trabalharei com vocês”. Eles não mudaram. Eu não trabalhei para eles.

Da minha geração de modelos, estou exatamente onde preciso estar na minha carreira e agradeço por poder usar a minha posição para me expressar ativamente contra isso, com o apoio do CFDA e da “Vogue”. A minha esperança sincera é de que, por meio dos nossos esforços, as jovens modelos um dia serão poupadas da humilhação, da perigosa perda de peso, da depressão que vem com a anorexia e da miséria do abandono de uma indústria envergonhada de vê-las transformadas em mulheres de verdade.

Há os padrões normais em como tratamos uns aos outros e como tratamos crianças. Há aqueles que continuam a atropelar estes valores, mas há também os defensores de um caminho melhor. Espero que os esforços contínuos do CFDA e de todos que respeitam estes valores irão influenciar a opinião dos que estão no lado contrário da indústria, para assegurar uma mudança verdadeira para o melhor.

Texto publicado originalmente em inglês, no blog da modelo canadense Coco Rocha, e gentilmente cedido por sua agência, Elite Model.

Tradução: Fernanda Schimidt

domingo, 21 de fevereiro de 2010

A gente NÃO se acostuma!

Faz tempo que eu não tenho tempo pra escrever... E eu lembrei disso quando fui lavar a louça ontem. Nada a ver com blogue, mas é que eu já postei aqui minha indignação com a qualidade da nossa água e então, vendo aquela água amarela saindo da torneira pela enésima vez, me lembrei da postagem (dessa vez eu não tirei foto) e me lembrei também de um texto da Marina Colasanti sobre o fato de a gente se acostumar com as coisas. O texto é bem velho e bem conhecido, mas sempre vale a pena reler, pra não esquecer de não se acostumar com as coisas. Nem com a água amarela!


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.


Marina Colasanti, "Eu sei, mas não devia", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1996, pág. 09.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

O que nós somos...
























Se aprende en la cuna,
se aprende en la cama,
se aprende en la puerta de un hospital.
Se aprende de golpe,
se aprende de a poco y a veces se aprende recién al final
Toda la gloria es nada
Toda vida es sagrada
Una estrellita de nada
en la periferia
de una galaxia menor.
Una, entre tantos millones
y un grano de polvo girando a su alrededor
No dejaremos huella,
sólo polvo de estrellas.

Se aprende en la escuela,
se olvida en la guerra,
un hijo te vuelve a enseñar.
Está en el espejo,
está en las trincheras, parece que nadie parece notar
Toda victoria es nada
Toda vida es sagrada
Un enjambre de moléculas
puestas de acuerdo
de forma provisional.
Un animal prodigioso
con la delirante obsesión de querer perdurar
No dejaremos huella,
sólo polvo de estrellas.

Vale
Una vida lo que un sol
Una vida lo que un sol
Vale

"Polvo de Estrellas", Jorge Drexler.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

O centro da Via Láctea

"¿Que hay en una estrella? Nosotros mismos.
Todos los elementos de nuestro cuerpo y del planeta
estuvieron en las entrañas de una estrella.
Somos polvo de estrellas."
ERNESTO CARDENAL, "Cántico Cósmico"

Foto da Nasa.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Lula: presta atenção nos conselhos do Dr Lasier

Vendo o Jornal do Almoço hoje (que também podia ser: Almanaque da Indigestão) não pude deixar de me impressionar, como de praxe, com os comentários fabulosos de Lasier Martins.
A matéria anterior era mais ou menos "o que as pessoas fazem na hora do almoço" e eles agora saem as ruas para saber o que os portoalegrenses estão fazendo ao meio dia. Incrivelmente descobriram pessoas trabalhando, andando pelas ruas e, pasmem, almoçando! Fiquei chocada!
Mas o que veio depois foi mais fantástico ainda. Pegando o gancho, o grande guru da RBS veio com seus comentários. Dizendo que almoça após sair da Emissora, enfatiza "que é preciso cuidar da saúde" e que "o almoço tem a ver". Daí, já consegue meter o Lula no meio (isso é que é criatividade) : "taí o caso do presidente Lula. O presidente Lula sofre um susto (...) resultado também da sua atividade alucinante" e, para chegar no ponto onde ele quer "tanto atividade do governo como agora sobrecarregada pelo empenho em garantir a eleição da sua candidata a sucessão dele".
Com um tom MUITO preocupado com a saúde do presidente, ele gante que este mal estar (causado pela alta da pressão arterial que Lula sofreu) serve como uma importante advertência para que o presidente cuide da SAÚDE e, com toda a ingenuidade do mundo, avalia que este fato vai aliviar o trabalho da justiça Eleitoral, já que para o presidente do Supremo, o simpatissíssimo Gilmar Mendes, ela estava "fechando os olhos para a campanha antecipada da candidata Lula" (ops) "da candidata Dilma ao lado de Lula".
Engraçado, não sei por que, mas notei uma leve preocupação nas palavras de Lasier... Será que ele tem algum receio da Dilma? Mas continuando: "de fato, vem sendo notório (com ênfase) o esforço do presidente pra tornar conhecida a candidata escolhida monocráticamente por ele pra concorrer". Então, a fim de preservar a saúde do presidente, Lasier aconselha que ele reduza suas atividades e também seu peso, "visivelmente gordo o presidente", pois ele está, segundo o comentarista, empenhado até mesmo na sucessão para o governo de São Paulo pois convenceu o Ciro Gomes a mudar seu domicílio eleitoral para lá a fim de "tirá-lo do caminho de Dilma"!
Pois é, acho que isso foi mesmo um sinal... talvez o Lula devesse parar de se preocupar com a sucessão presidencial e contratar o Lasier para conselheiro pessoal. Como ele ainda não percebeu isso?
Ainda mais que ele, Lasier, é um cara completamente isento e neutro e pode emitir suas opiniões com total credibilidade! Ou será que não?