por Olívio Dutra
Sempre fui desvinculado organicamente de estruturas políticas antes e, depois, dentro do PT. Não reivindico isso como virtude, mas não é tampouco um defeito, talvez uma limitação. Venho da vertente sindicalista que ajudou a fundar o partido.
Um balanço do PT, como partido de esquerda, socialista e democrático, tem de vê-lo como parte da luta histórica do povo brasileiro, em especial dos trabalhadores, na busca de ferramentas capazes não só de mexer mas de alterar a estrutura de poder do Estado e sociedade brasileiros marcada por privilégios baseados no enorme poder político, econômico, cultural de uma minoria. O PT nasceu para lutar por uma sociedade sem explorados e sem exploradores e radicalmente democrática.
Antes do PT, ainda no século XIX, surge o PSB, o primeiro partido de esquerda do Brasil republicano. O movimento operário anarquista das primeiras décadas do século xx era avesso à idéia de um partido. O PC surge em 1922. O PT aparece numa conjuntura de enorme agitação política reprimida por uma ditadura militar, fruto do golpe de 1964 que recompôs as elites contra um populismo que já não controlava mais as lutas sociais.
Este populismo, iniciado por Vargas e que inspira Jango e Brizola, era dirigido por gente ligada ao latifúndio “esclarecido”, um pouco na tradição dos republicanos gaúchos- Julio de Castilhos, Borges de Medeiros – que compartilhavam a idéia de que política não é para qualquer um, que o povo precisa de alguém que o cuide.
O PT nasceu com a idéia de que o povo devia ser o sujeito de sua história, o que marcou os seus primeiros passos. Mas, à medida em que conquistou mandatos em vários níveis, a coisa foi ficando“osca”, suas convicções e perspectivas foram perdendo nitidez. Houve uma acomodação na ocupação das máquinas institucionais (inclusive no Judiciário).
Diante desse processo o PT não se rediscutiu, não discutiu os efeitos dessa adaptação à institucionalidade de um Estado e de uma sociedade que, para serem democráticos, precisam ser radicalmente transformados.
Assim, o PT cresce quantitativamente – em 2011 temos três vezes mais diretórios municipais, passamos de mil a 3 mil, em função de eleições e do fato de o partido estar no governo federal e em governos estaduais, municipais, além de ter eleito centenas de parlamentares nos três níveis de representação.
E, bem mais que as idéias ou mesmo o programa, o que mobiliza o partido, ultimamente, são as eleições internas e externas. Somos todos responsáveis por isso: a política como um “toma lá, dá cá”, confundindo-se com negócios, esperteza,e a idéia de tirar proveito pessoal dos cargos públicos conquistados. E tem gente chegando no partido para isso, favorecidos pelo discurso da governabilidade mínima com o máximo de pragmatismo político.
Mesmo com os dois mandatos de Lula, demarcatórios na história de nosso país,o Estado brasileiro não foi mexido na sua essência. O 1º mandato foi de grande pragmatismo, onde a habilidade de Lula suplantou o protagonismo do Partido e garantiu, para um governo de composição, uma direção, ainda que com limites, transformadora da política. A política de partilhar espaços do Estado com aliados políticos de primeira e última hora de certa forma já vinha de experiências de governos municipais e estaduais mas ali atingiu a sua quinta essência. No 2º mandato, ao invés de o PT recuperar o protagonismo, diluiu-se mais um pouco, disputando miríades de cargos em todos os escalões da máquina pública.
Quanto à Dilma, ela é um quadro político da esquerda. Seu ingresso no PT, honroso para nós, não foi uma decisão fácil para ela, militante socialista do PDT e sua fundadora.
O PDT estava no governo da Frente Popular(PT, PDT, PSB, PC, PC do B) no RS. Veio conosco no 2º turno. No 1º turno sua candidata tinha sido a ex-senadora Emilia Fernandes. A relação do Brizola com o PT e com nosso governo nunca foi tranqüila. Tive de contornar demandas descabidas para criar secretarias para abrigar pessoas de sua indicação. Lembro o quanto lutamos pela anistia e volta dos exilados ainda durante a ditadura. Ocorre que em 1979, quando Brizola voltava do exílio, nós, os bancários de Porto Alegre – eu era presidente do sindicato da categoria – estávamos em greve. Caiu a repressão sobre nós com intervenção no sindicato e prisão de lideranças. Brizola permaneceu em São Borja no aguardo de que, com a prisão dos dirigentes, a greve acabasse. Veio até Carazinho, mas como a greve, apesar da repressão, não terminara, voltou para São Borja. A categoria tinha a expectativa que ele, pelo menos, desse uma declaração contra a repressão ao movimento. Não se manifestou.
Quando do governo da Frente Popular, em decorrência de o PT e PDT terem candidaturas opostas à Prefeitura de POA(nosso candidato, eleito, foi o Tarso Genro), Brizola, como presidente nacional do PDT, fez pressão para que trocássemos os secretários pedetistas ligados ao “trabalhismo social”: Dilma, Sereno, Pedro Ruas e Milton Zuanazzi, caso contrário o PDT deixaria o governo. Não concordamos. Eles foram mantidos nos cargos e com plena liberdade para se decidirem sobre sua vinculação partidária. Todos eles travaram uma discussão intensa nas instâncias do PDT e deliberaram desfiliarem-se e, posteriormente, após nova discussão interna, desta vez nas instâncias do PT, filiarem-se ao nosso partido. A Dilma, à época em que reabrimos a negociação sobre os subsídios, favores tributários e renúncia fiscal para a Ford, estava ainda no PDT e, como Secretária de Minas e Energia do nosso governo, participou da construção da decisão que, séria, responsável e republicanamente tomamos. Sua postura determinada nessas e em outras circunstâncias teem o nosso reconhecimento, respeito e admiração.
Ela tem clareza sobre como funciona o Estado e como deveria funcionar, sob controle público, para ser justo, desenvolvido e democrático mas, a composição do governo é um limitador e ela não vai poder alterar as estruturas arcaicas e injustas do Estado brasileiro, coisa que o próprio Lula, com toda sua historia vinculada às lutas sociais da s últimas décadas, não conseguiu fazer. Para mexer nisso, tem que ser debaixo para cima!
Então aí está o papel do partido que não pode se acomodar. Nós, os petistas, nos vangloriamos de feitos em prefeituras, governos estaduais e federal. Mas, criamos mais consciência no povo para que se assuma como sujeito e não objeto da política?
Nas eleições fala-se em “obras” e não se discute a estrutura do Estado, como e quem exerce o poder na sociedade e no estado brasileiros, os impostos regressivos para os ricos e progressivos para os pobres, as isenções, os favores tributários, a enorme renúncia fiscal. Tem prefeitura do PT que privatiza a água, aceitando o jogo do capital privado e a redução do papel do estado numa questão estratégica como essa.
O PT não se esgotou no seu projeto estratégico,mas corre o risco de se tornar mais um partido no jogo de cena em que as elites decidem o quinhão dos de baixo preservando os privilégios dos de cima. Nosso partido tem de desbloquear a discussão de questões estruturais do estado e da sociedade brasileira da disputa imediata por cargos. Essa discussão deve ser feita não apenas internamente mas com o povo brasileiro.
Realizar Seminários onde se discuta até mesmo o papel e o estatuto das correntes internas. Seminários com os lutadores sociais para discutir como um o partido com nossa origem e compromisso pode governar transformadoramente sem se apequenar no pragmatismo político.
A lógica predominante, diante das eleições do ano que vem, é de governarmos mais cidades, mas qual a cidade que queremos? A imposta pela indústria automobilística, desde os tempos de JK, com ferrovias privatizadas e sucateadas e o rodoviarismo exigindo que o espaço urbano se esgarce e se desumanize para dar espaço para o automóvel particular? Onde as multinacionais se instalam com as maiores vantagens do mundo e as cidades viram garagens para carros, onde túneis, viadutos e passarelas, cuja capacidade se esgota em menos de 10 anos, tecem teias de concreto que mais aprisionam do que libertam o ser humano?
O PT deve refletir sobre suas experiências de governar as cidades . São muitas e nenhuma definitiva. O Orçamento Participativo não foi radicalizado ao ponto de ser apropriado pela cidadania como ferramenta sua para controle não só de receitas e despesas, verbas para obras e serviços, no curto prazo,mas sobre a renda da cidade, sua geração e o papel do governo na sua emulação e correta distribuição social, cultural, espacial, econômica e política. O Orçamento Participativo tem que ser pensado não como uma justificativa para a distribuição compartilhada de poucos recursos mas como gerador de cidadania capaz de, num processo de radicalidade democrática crescente, encontrar formas de erradicar o contraste miséria/riqueza do panorama de nossas cidades.
A crise econômica mundial está longe de ser debelada e os países ricos teem enorme capacidade de “socializar” o pagamento dela com os países pobres. No chamado Estado de Direito Democrático o ato de governar é resultado de uma ação articulada e interdependente entre os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. Ocorre que na sociedade capitalista o Poder Econômico, que não está definido na Constituição, é tão poderoso e influente quanto todos aqueles juntos. Portanto, a confusão entre governo e esse poder “invisível” privatiza o Estado e é caldo de cultura para a corrupção.
Como presidente de honra do PT-RS tenho cumprido agenda partidária, fazendo roteiros, visitando cidades, participando de atos de filiações, ouvindo as lideranças de base e discutindo o PT. Sinto-me provocado positivamente com esta tarefa.
Mas na estrutura que existe hoje o Partido é cada vez mais dependente, inclusive financeiramente, dos cargos executivos e mandatos legislativos que vem conquistando. É difícil, pois, uma guinada, sem que haja pressão debaixo para cima sobre as direções , correntes, cargos e mandatos. Assim como está o PT vai crescer “inchando”, acomodando interesses. A inquietação na base quanto à isso ainda é pequena mas é sinalizadora de que a luta para que o PT seja um partido da transformação e não da acomodação vale a pena.
terça-feira, 13 de março de 2012
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Por que o Danilo Gentili NÃO é inteligente
Escrevi esse texto como resposta a um texto do Gentili que estão divulgando no facebbok.
Que me desculpem os que gostam do babaca do Gentili, mas vejamos algumas das opiniões desse cara sobre o fato, lá de 2008, quando ele comparou um jogador de futebol com o king kong:
"Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista".
Não! Não tem nada a ver meu caro! A utilização do termo "raça" para se referir ao negro tem uma conotação sociológica, não biológica. Se ele estivesse mais preocupado em estudar do que em querer parecer engraçadinho, saberia que esta discussão foi travada pelo movimento negro em função da indentificação das mazelas que o racismo provocou em nossa sociedade. E se a nossa sociedade É racista, então é porque considera que existe raça e que uma é melhor que a outra. Foi preciso um grande esforço para mostrar ao Brasil que o nosso racismo é mascarado e por isso mesmo extremamente cruel. Pessoas que usam esse tipo de argumento do Gentili para serem engraçadinhas fazem um imenso desfavor para a diminuição das desigualdades "raciais" da nossa sociedade.
"Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos."
Talvez, também pelo esforço em fazer "piada", o gentili desconheça o significado de EMPATIA. Não é preciso ser negro para saber que ser chamado de macaco é no sentido ofensivo, de animal "quase humano", mas inferior. Mesmo assim, digamos que ele ache normal debochar das pessoas por algum atributo que elas venham a ter, mas não conheço ninguém que tenha gostado de, pelo fado de ser gordo, ser chamado de baleia. Isso só deve ser engraçado pra quem faz o deboche.
"Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?"
Quando mesmo que o Darwin disse isso? Ah, talvez ele estivesse preocupado em bolar uma "piada" na hora que a professora de história falou que o Darwin disse que os humanos e os macacom têm um ANCESTRAL COMUM!
"não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é?"
Ele tá se fazendo de ingênuo ou é burro mesmo? Então tá Gentili, vamos dizer que "talvez" os termos que usamos tenham sentidos histórico e sociologico e que são carregados de significados e que é direito de um grupo de pessoas que compõe mais da metade dos cidadão do teu país não gostarem do sentido sócio-histórico da palavra.
"Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: "E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!"
É tão imbecil e superficial... claro! Esses argumentos usados pelo Gentili são altamente intelectualizados. Sobre os que se incomodam tanto com o "politicamente correto", eu diria que o incômodo se dá porque ele cutuca a ignorância do sujeito sobre o assunto em questão e que dá muito trabalho sair do senso comum. Então é mais fácil chingar de politicamente correto. É uma posição que se toma na vida...
"SOU ÍTALO-DESCENDENTE. ITALIANOS NÃO ESCRAVIZARAM AFRICANOS NO BRASIL. VIERAM PRA CÁ E, ASSIM COMO OS PRETOS, TRABALHARAM NA LAVOURA. A DIFERENÇA É QUE ESCRAVA ISAURA FEZ MAIS SUCESSO QUE TERRA NOSTRA."
Os Italianos estiveram na África colonizando também em outro período histórico, mas o que realmente me impressiona é o fato de ele achar que trabalhar na lavoura e ser escravo seja a mesma coisa. Mas depois ele ameniza dizendo que tá, eles foram chicoteados e os italianos não...
"Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto?"
QUEM DISSE QUE É ENGRAÇADO???? O "macho adulto branco sempre no comando", como diria Caetano? Ah tá, entendi os argumentos dele agora!
Que me desculpem os que gostam do babaca do Gentili, mas vejamos algumas das opiniões desse cara sobre o fato, lá de 2008, quando ele comparou um jogador de futebol com o king kong:
"Se você me disser que é da raça negra, preciso dizer que você também é racista".
Não! Não tem nada a ver meu caro! A utilização do termo "raça" para se referir ao negro tem uma conotação sociológica, não biológica. Se ele estivesse mais preocupado em estudar do que em querer parecer engraçadinho, saberia que esta discussão foi travada pelo movimento negro em função da indentificação das mazelas que o racismo provocou em nossa sociedade. E se a nossa sociedade É racista, então é porque considera que existe raça e que uma é melhor que a outra. Foi preciso um grande esforço para mostrar ao Brasil que o nosso racismo é mascarado e por isso mesmo extremamente cruel. Pessoas que usam esse tipo de argumento do Gentili para serem engraçadinhas fazem um imenso desfavor para a diminuição das desigualdades "raciais" da nossa sociedade.
"Quando um humano se xinga de burro ou elefante dão risada. Mas quando xingam de macaco vão presos."
Talvez, também pelo esforço em fazer "piada", o gentili desconheça o significado de EMPATIA. Não é preciso ser negro para saber que ser chamado de macaco é no sentido ofensivo, de animal "quase humano", mas inferior. Mesmo assim, digamos que ele ache normal debochar das pessoas por algum atributo que elas venham a ter, mas não conheço ninguém que tenha gostado de, pelo fado de ser gordo, ser chamado de baleia. Isso só deve ser engraçado pra quem faz o deboche.
"Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?"
Quando mesmo que o Darwin disse isso? Ah, talvez ele estivesse preocupado em bolar uma "piada" na hora que a professora de história falou que o Darwin disse que os humanos e os macacom têm um ANCESTRAL COMUM!
"não sei qual o problema em chamar um preto de preto. Esse é o nome da cor não é?"
Ele tá se fazendo de ingênuo ou é burro mesmo? Então tá Gentili, vamos dizer que "talvez" os termos que usamos tenham sentidos histórico e sociologico e que são carregados de significados e que é direito de um grupo de pessoas que compõe mais da metade dos cidadão do teu país não gostarem do sentido sócio-histórico da palavra.
"Digo isso porque a patrulha do politicamente correto é tão imbecil e superficial que tenho absoluta certeza que serei censurado se um dia escutarem eu dizer: "E aí seu PRETO, senta aqui e toma uma comigo!"
É tão imbecil e superficial... claro! Esses argumentos usados pelo Gentili são altamente intelectualizados. Sobre os que se incomodam tanto com o "politicamente correto", eu diria que o incômodo se dá porque ele cutuca a ignorância do sujeito sobre o assunto em questão e que dá muito trabalho sair do senso comum. Então é mais fácil chingar de politicamente correto. É uma posição que se toma na vida...
"SOU ÍTALO-DESCENDENTE. ITALIANOS NÃO ESCRAVIZARAM AFRICANOS NO BRASIL. VIERAM PRA CÁ E, ASSIM COMO OS PRETOS, TRABALHARAM NA LAVOURA. A DIFERENÇA É QUE ESCRAVA ISAURA FEZ MAIS SUCESSO QUE TERRA NOSTRA."
Os Italianos estiveram na África colonizando também em outro período histórico, mas o que realmente me impressiona é o fato de ele achar que trabalhar na lavoura e ser escravo seja a mesma coisa. Mas depois ele ameniza dizendo que tá, eles foram chicoteados e os italianos não...
"Se é engraçado piada de gay e gordo, por que não é a de preto?"
QUEM DISSE QUE É ENGRAÇADO???? O "macho adulto branco sempre no comando", como diria Caetano? Ah tá, entendi os argumentos dele agora!
segunda-feira, 30 de janeiro de 2012
Trangênicos e sociedade
O tema "foi" deveras polêmico, porém parece que ninguém mais tá interessado em discutir. A gente prefere ficar na cômoda situação de deixar como está, que os outros se preocupem pela gente, se tiver algum problema. Aqueles que "tem tempo" e que "adoram" criar uma polêmica.
Bom, mas a questão não simplesmente criar polêmica. A questão é de saúde pública, é ambiental, é de direito do consumidor e do produtor rural, é de mercado e monopólios, é social, é da área da biotecnologia... enfim, é de um monte de coisas. Quem não se interessa por uma pode se interessar por outra. E esse é o ponto forte do livro "Transgênicos para quem?" que foi lançado no Fórum Social Temático 2012 em Poa. O livro é uma publicação do NEAD/MDA e conta com diversos especialistas no assunto do Brasil e da França.
Acho que a gente não pode deixar esse assunto morrer, não podemos cair no comodismo. É SÓ(e reforço o só) com a pressão da sociedade que as coisas acontecem. Se deixarmos as corporações tomarem conta do nosso destino, em pouco tempo 1984 estará aí! A nossa sociedade é cada vez mais artificial, não nos preocupamos mais com a origem das coisas, com todo o processo que envolve sua fabricação. Sobre isso, vale esse vídeo:
Estamos distantes demais da realidade para sabermos que um salsichão comprado no super é feito com a carne de um animal que antes era vivo:
Temos que entender que somos animais e que fazemos parte deste planeta, não somos algo além dele ou pior, acima dele. Que as coisas acontecem em rede, que tudo é interligado, não só a internet.
Bom, mas a questão não simplesmente criar polêmica. A questão é de saúde pública, é ambiental, é de direito do consumidor e do produtor rural, é de mercado e monopólios, é social, é da área da biotecnologia... enfim, é de um monte de coisas. Quem não se interessa por uma pode se interessar por outra. E esse é o ponto forte do livro "Transgênicos para quem?" que foi lançado no Fórum Social Temático 2012 em Poa. O livro é uma publicação do NEAD/MDA e conta com diversos especialistas no assunto do Brasil e da França.
Acho que a gente não pode deixar esse assunto morrer, não podemos cair no comodismo. É SÓ(e reforço o só) com a pressão da sociedade que as coisas acontecem. Se deixarmos as corporações tomarem conta do nosso destino, em pouco tempo 1984 estará aí! A nossa sociedade é cada vez mais artificial, não nos preocupamos mais com a origem das coisas, com todo o processo que envolve sua fabricação. Sobre isso, vale esse vídeo:
Estamos distantes demais da realidade para sabermos que um salsichão comprado no super é feito com a carne de um animal que antes era vivo:
Temos que entender que somos animais e que fazemos parte deste planeta, não somos algo além dele ou pior, acima dele. Que as coisas acontecem em rede, que tudo é interligado, não só a internet.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Entrevista com Sílvio Tendler e vídeo O Veneno está na Mesa
A situação da produção de alimentos no mundo é muito preocupante, já que a última preocupação da agroindústria são a nutrição e a saúde da população. No Brasil, não é diferente. Aqui, os latifundiários e grandes produtores de alimentos não matam apenas pela posse da terra os pequenos agricultores, mas matam seus empregados, que tem que usar absurdas quantidades de venenos e os consumidores, que se alimentam de produtos intoxicados que vão acumulando no organismo, provocando câncer e outras doenças fatais. E isso vai além de um único governo. Essa situação está entranhada na nossa história e estrutura social e política. E somos nós que podemos pressionar por mudanças. Não adianta só ficar reclamando. Temos que divulgar vídeos como esse, conscientizar amigos e vizinhos, conhecer os projetos e história dos políticos em quem vamos votar, educar nossos filhos para buscarem o direito de viver em um mundo melhor...
A entrevista com o Sílvio Tendler do Brasil de Fato, reproduzida pelo Portal Vermelho é excelente para pensar sobre isso. E o vídeo dele também! Boa reflexão!
Hasta!
Em O veneno está na mesa, lançado no último dia (25) no Rio de Janeiro, o documentarista mostra que o Brasil está envenenando diariamente sua população a partir do uso abusivo de agrotóxicos nos alimentos. Em um ranking para se envergonhar, o brasileiro é o que mais consome agrotóxico em todo o mundo, sendo 5,2 litros a cada ano por habitante. As consequências, como mostra o documentário, são desastrosas.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Silvio Tendler diz que o problema está no modelo de desenvolvimento brasileiro. E seu filme, que também é um produto da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, capitaneada por uma dezena de movimentos sociais, nos leva a uma reflexão sobre os rumos desse modelo. Confira.
Brasil de Fato: Você que é um especialista em registrar a história do Brasil, por que resolveu documentar o impacto dos agrotóxicos sobre a agricultura e não um outro tema nacional?
Silvio Tendler: Porque a partir de agora estou querendo discutir o futuro e não mais o passado. Eu tenho todo o respeito pelo passado, adoro os filmes que fiz, adoro minha obra. Aliás, meus filmes não são voltados para o passado, são voltados para uma reflexão que ajuda a construir o presente e, de uma certa forma, o futuro. Mas estou muito preocupado. Na verdade esse filme nasceu de uma conversa minha com [o jornalista e escritor] Eduardo Galeano em Montevidéu [no Uruguai] há uns dois anos, em que discutíamos o mundo, o futuro, a vida. E o Galeano estava muito preocupado porque o Brasil é o país que mais consumia agrotóxico no mundo. O mundo está sendo completamente intoxicado por uma indústria absolutamente desnecessária e gananciosa, cujo único objetivo realmente é ganhar dinheiro. Quer dizer, não tem nenhum sentido para a humanidade que justifique isso que está se fazendo com os seres humanos e a própria terra. A partir daí resolvi trabalhar essa questão. Conversei com o João Pedro Stédile [coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], e ele disse que estavam preocupados com isso também. Por coincidência, surgiu a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos, movida por muitas entidades, todas absolutamente muito respeitadas e respeitáveis. Fizemos a parceria e o filme ficou pronto. É um filme que vai ter desdobramentos, porque eu agora quero trabalhar essas questões.
Brasil de Fato: Então seus próximos documentários deverão tratar desse tema?
ST: Pra você ter uma ideia, no contrato inicial desse documentário consta que ele seria feito em 26 minutos, mas é muita coisa pra falar. Então ficou em 50 [minutos]. E as pessoas quando viram o filme, ao invés de me dizerem ‘está muito longo’, disseram ‘está curto, você tem que falar mais’. Quer dizer, tem que discutir outras questões, e aí eu me entusiasmei com essa ideia e estou querendo discutir temas conexos à destruição do planeta por conta de um modelo de desenvolvimento perverso que está sendo adotado. Uma questão para ser discutida de forma urgente, que é conexa a esse filme, é o agronegócio. É o modelo de desenvolvimento brasileiro. Quer dizer, porque colocar os trabalhadores para fora da terra deles para que vivam de forma absolutamente marginal, provocando o inchaço das cidades e a perda de qualidade de vida para todo mundo, já que no espaço onde moravam cinco, vão morar 15? Por que se plantou no Brasil esse modelo que expulsa as pessoas da terra para concentrar a propriedade rural em poucas mãos, esse modelo de desenvolvimento, todo ele mecanizado, industrializado, desempregando mão de obra para que algumas pessoas tenham um lucro absurdo? E tudo está vinculado à exploração predatória da terra. Por que nós temos que desenvolver o mundo, a terra, o Brasil em função do lucro e não dos direitos do homem e da natureza? Essas são as questões que quero discutir.
Brasil de Fato: Você também mostrou que até mesmo os trabalhadores que não foram expulsos do campo estão morrendo por aplicar em agrotóxicos nas plantações. O impacto na saúde desses agricultores é muito grande...
ST: É mais grave que isso. Na verdade, o cara é obrigado a usar o agrotóxicoagrotóxico, ele não recebe o crédito do banco. O banco não financia a agricultura sem agrotóxico. Inclusive tem um camponês que fala isso no filme, o Adonai. Ele conta que no dia em que o inspetor do banco vai à plantação verificar se ele comprou os produtos, se você não tiver as notas da semente transgênica, do herbicida, etc., você é obrigado a devolver o dinheiro. Então não é verdade que se dá ao camponês agricultor o direito de dizer ‘não quero plantar transgênico’, ‘não quero trabalhar com herbicidas’, ‘quero trabalhar com agricultura orgânica, natural’. Porque para o banco, a garantia de que a safra vai vingar não é o trabalho do camponês e a sua relação com a terra, são os produtos químicos que são usados para afastar as pestes, afastar pragas. Esse modelo está completamente errado. O camponês não tem nenhum tipo de crédito alternativo, que dê a ele o direito de fazer um outro tipo de agricultura. E aí você deixa as pessoas morrendo como empregadas do agronegócio, como tem o Vanderlei, que é mostrado no filme. Depois de três anos fazendo a tal da mistura dos agrotóxicos, morreu de uma hepatopatia grave. Tem outra senhora de 32 anos que está ficando totalmente paralítica por conta do trabalho dela com agrotóxico na lavoura do fumo.
Brasil de Fato: A impressão que dá é que os brasileiros estão se envenenando sem saber. Você acha que o filme pode contribuir para colocar o assunto em discussão?
ST: Eu acho que a discussão é exatamente essa, a discussão é política. Eu, de uma certa maneira, despolitizei propositadamente o documentário. Eu não queria fazer um discurso em defesa da reforma agrária ou contra o agronegócio para não politizar a questão, para não parecer que, na verdade, a gente não quer comer bem, a gente quer dividir a terra. E são duas coisas que, apesar de conexas, eu não quis abordar. Eu não quis, digamos assustar a classe média. Eu só estou mostrando os malefícios que o agrotóxico provoca na vida da gente para que a classe média se convença que tem que lutar contra os agrotóxicos, que é uma luta que não é individual, é uma luta coletiva e política. Tem muita gente que parte do princípio ‘ah, então já sei, perto da minha casa tem uma feirinha orgânica e eu vou me virar e comer lá’, porque são pessoas que têm maior poder aquisitivo e poderiam comprar. Mas a questão não é essa. A questão é política, porque o agrotóxico está infiltrado no nosso cotidiano, entendeu? Queira você ou não, o agrotóxico chega à sua mesa através do pão, da pizza, do macarrão. O trigo é um trigo transgênico e chega a ser tratado com até oito cargas de pulverizador por ano. Você vai na pizzaria comer uma pizza deliciosa e aquilo ali tem transgênico. O que você está comendo na sua mesa é veneno. Isso independe de você. Hoje nada escapa. Então, ou você vai ser um monge recluso, plantando sua hortinha e sua terrinha, ou se você é uma pessoa que vai ficar exposta a isso e será obrigada a consumir.
Brasil de Fato: Como você avalia o governo Dilma a partir dessa política de isenção fiscal para o uso de agrotóxico no campo brasileiro?
ST: Deixa eu te falar, o governo Dilma está começando agora, não tem nenhum ano, então não dá para responsabilizá-la por essa política. Na verdade esse filme vai servir de alerta para ela também. Muitas das coisas que são ditas no filme, eles [o governo] não têm consciência. Esse filme não é para se vingar de ninguém. É para alertar. Quer dizer, na verdade você mora em Brasília, você está longe do mundo, e alguém diz para você ‘ah, isso é frescura da esquerda, esse problema não existe’, e os relatórios que colocam na sua mesa omitem as pessoas que estão morrendo por lidar diretamente com agrotóxico. [As mortes] vão todas para as vírgulas das estatísticas, entendeu? Acho que está na hora de mostrar que muitas vidas não seriam sacrificadas se a gente partisse para um modelo de agricultura mais humano, mais baseado nos insumos naturais, no manejo da terra, ao invés de intoxicar com veneno os rios, os lagos, os açudes, as pessoas, as crianças que vivem em volta, entendeu? Eu acho que seria ótimo se esse filme chegasse nas mãos da presidente e ela pudesse tomar consciência desse modelo que nós estamos vivendo e, a partir daí, começasse a mudar as políticas.
Brasil de Fato: No documentário você optou por não falar com as empresas produtoras de agrotóxicos. Essa ideia ficou para um outro documentário?
ST: É porque eu não quis fazer um filme que abrisse uma discussão técnica. Se as empresas reclamarem muito e pedirem para falar, eu ouço. Eu já recebi alguns pedidos e deixei as portas abertas. No Ceará eu filmei um cara que trabalha com gado leiteiro que estava morrendo contaminado por causa de uma empresa vizinha. Eu filmei, a empresa vizinha reclamou e eu deixei a porta aberta, dizendo ‘tudo bem, então vamos trabalhar em breve isso num outro filme’. Se as empresas que manipulam e produzem agrotóxico me chamarem para conversar, eu vou. E vou me basear cientificamente na questão porque eles também são craques em enrolar. Querem comprovar que você está comendo veneno e tudo bem (risos). E eu preciso de subsídios para dizer que não, que aquele veneno não é necessário para a minha vida. Nesse primeiro momento, eu quis botar a discussão na mesa. Algumas pessoas já começaram a me assustar, ‘você vai tomar processo’, mas eu estou na vida para viver. Se o cara quiser me processar por um documentário no qual eu falei a verdade, ele processa pois tem o direito. Agora, eu tenho direito, como cineasta, de dizer o que eu penso.
Brasil de Fato: Esse filme será lançado somente no Rio ou em outras capitais também?
ST: Eu estou convidado também para ir para Pernambuco em setembro, mas o filme pode acontecer independente de mim. Esse filme está saindo com o selinho de ‘copie e distribua’. Ele não será vendido. A gente vai fazer algumas cópias e distribuir dentro do sentido de multiplicação, no qual as pessoas recebem as cópias, fazem novas e as distribuem. O ideal é que cada entidade, e são mais de 20 bancando a Campanha, consiga distribuir pelo menos mil unidades. De cara você tem 20 mil cópias para serem distribuídas. E depois nós temos os estudantes, os movimentos sociais e sindicais, os professores. Vai ser uma discussão no Brasil. Temos que levar esse documentário para Brasília, para o Congresso, para a presidente da República, para o ministro da Agricultura, para o Ibama. Todo mundo tem que ver esse filme.
Brasil de Fato: E expectativa é boa então?
ST: Sim. Eu sou um otimista. Sempre fui.
A entrevista com o Sílvio Tendler do Brasil de Fato, reproduzida pelo Portal Vermelho é excelente para pensar sobre isso. E o vídeo dele também! Boa reflexão!
Hasta!
Silvio Tendler: o veneno está na mesa do brasileiro
Silvio Tendler é um especialista em documentar a história brasileira. Já o fez a partir de João Goulart, Juscelino Kubitschek,Carlos Marighela, Milton Santos, Glauber Rocha e outros nomes importantes. Em seu último documentário, Silvio não define nenhum personagem em particular, mas dá o alerta para uma grave questão que atualmente afeta a vida e a saúde dos brasileiros: o envenenamento a partir dos alimentos.
Em entrevista ao Brasil de Fato, Silvio Tendler diz que o problema está no modelo de desenvolvimento brasileiro. E seu filme, que também é um produto da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, capitaneada por uma dezena de movimentos sociais, nos leva a uma reflexão sobre os rumos desse modelo. Confira.
Brasil de Fato: Você que é um especialista em registrar a história do Brasil, por que resolveu documentar o impacto dos agrotóxicos sobre a agricultura e não um outro tema nacional?
Silvio Tendler: Porque a partir de agora estou querendo discutir o futuro e não mais o passado. Eu tenho todo o respeito pelo passado, adoro os filmes que fiz, adoro minha obra. Aliás, meus filmes não são voltados para o passado, são voltados para uma reflexão que ajuda a construir o presente e, de uma certa forma, o futuro. Mas estou muito preocupado. Na verdade esse filme nasceu de uma conversa minha com [o jornalista e escritor] Eduardo Galeano em Montevidéu [no Uruguai] há uns dois anos, em que discutíamos o mundo, o futuro, a vida. E o Galeano estava muito preocupado porque o Brasil é o país que mais consumia agrotóxico no mundo. O mundo está sendo completamente intoxicado por uma indústria absolutamente desnecessária e gananciosa, cujo único objetivo realmente é ganhar dinheiro. Quer dizer, não tem nenhum sentido para a humanidade que justifique isso que está se fazendo com os seres humanos e a própria terra. A partir daí resolvi trabalhar essa questão. Conversei com o João Pedro Stédile [coordenador do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], e ele disse que estavam preocupados com isso também. Por coincidência, surgiu a Campanha Permanente contra os Agrotóxicos, movida por muitas entidades, todas absolutamente muito respeitadas e respeitáveis. Fizemos a parceria e o filme ficou pronto. É um filme que vai ter desdobramentos, porque eu agora quero trabalhar essas questões.
Brasil de Fato: Então seus próximos documentários deverão tratar desse tema?
ST: Pra você ter uma ideia, no contrato inicial desse documentário consta que ele seria feito em 26 minutos, mas é muita coisa pra falar. Então ficou em 50 [minutos]. E as pessoas quando viram o filme, ao invés de me dizerem ‘está muito longo’, disseram ‘está curto, você tem que falar mais’. Quer dizer, tem que discutir outras questões, e aí eu me entusiasmei com essa ideia e estou querendo discutir temas conexos à destruição do planeta por conta de um modelo de desenvolvimento perverso que está sendo adotado. Uma questão para ser discutida de forma urgente, que é conexa a esse filme, é o agronegócio. É o modelo de desenvolvimento brasileiro. Quer dizer, porque colocar os trabalhadores para fora da terra deles para que vivam de forma absolutamente marginal, provocando o inchaço das cidades e a perda de qualidade de vida para todo mundo, já que no espaço onde moravam cinco, vão morar 15? Por que se plantou no Brasil esse modelo que expulsa as pessoas da terra para concentrar a propriedade rural em poucas mãos, esse modelo de desenvolvimento, todo ele mecanizado, industrializado, desempregando mão de obra para que algumas pessoas tenham um lucro absurdo? E tudo está vinculado à exploração predatória da terra. Por que nós temos que desenvolver o mundo, a terra, o Brasil em função do lucro e não dos direitos do homem e da natureza? Essas são as questões que quero discutir.
Brasil de Fato: Você também mostrou que até mesmo os trabalhadores que não foram expulsos do campo estão morrendo por aplicar em agrotóxicos nas plantações. O impacto na saúde desses agricultores é muito grande...
ST: É mais grave que isso. Na verdade, o cara é obrigado a usar o agrotóxicoagrotóxico, ele não recebe o crédito do banco. O banco não financia a agricultura sem agrotóxico. Inclusive tem um camponês que fala isso no filme, o Adonai. Ele conta que no dia em que o inspetor do banco vai à plantação verificar se ele comprou os produtos, se você não tiver as notas da semente transgênica, do herbicida, etc., você é obrigado a devolver o dinheiro. Então não é verdade que se dá ao camponês agricultor o direito de dizer ‘não quero plantar transgênico’, ‘não quero trabalhar com herbicidas’, ‘quero trabalhar com agricultura orgânica, natural’. Porque para o banco, a garantia de que a safra vai vingar não é o trabalho do camponês e a sua relação com a terra, são os produtos químicos que são usados para afastar as pestes, afastar pragas. Esse modelo está completamente errado. O camponês não tem nenhum tipo de crédito alternativo, que dê a ele o direito de fazer um outro tipo de agricultura. E aí você deixa as pessoas morrendo como empregadas do agronegócio, como tem o Vanderlei, que é mostrado no filme. Depois de três anos fazendo a tal da mistura dos agrotóxicos, morreu de uma hepatopatia grave. Tem outra senhora de 32 anos que está ficando totalmente paralítica por conta do trabalho dela com agrotóxico na lavoura do fumo.
Brasil de Fato: A impressão que dá é que os brasileiros estão se envenenando sem saber. Você acha que o filme pode contribuir para colocar o assunto em discussão?
ST: Eu acho que a discussão é exatamente essa, a discussão é política. Eu, de uma certa maneira, despolitizei propositadamente o documentário. Eu não queria fazer um discurso em defesa da reforma agrária ou contra o agronegócio para não politizar a questão, para não parecer que, na verdade, a gente não quer comer bem, a gente quer dividir a terra. E são duas coisas que, apesar de conexas, eu não quis abordar. Eu não quis, digamos assustar a classe média. Eu só estou mostrando os malefícios que o agrotóxico provoca na vida da gente para que a classe média se convença que tem que lutar contra os agrotóxicos, que é uma luta que não é individual, é uma luta coletiva e política. Tem muita gente que parte do princípio ‘ah, então já sei, perto da minha casa tem uma feirinha orgânica e eu vou me virar e comer lá’, porque são pessoas que têm maior poder aquisitivo e poderiam comprar. Mas a questão não é essa. A questão é política, porque o agrotóxico está infiltrado no nosso cotidiano, entendeu? Queira você ou não, o agrotóxico chega à sua mesa através do pão, da pizza, do macarrão. O trigo é um trigo transgênico e chega a ser tratado com até oito cargas de pulverizador por ano. Você vai na pizzaria comer uma pizza deliciosa e aquilo ali tem transgênico. O que você está comendo na sua mesa é veneno. Isso independe de você. Hoje nada escapa. Então, ou você vai ser um monge recluso, plantando sua hortinha e sua terrinha, ou se você é uma pessoa que vai ficar exposta a isso e será obrigada a consumir.
Brasil de Fato: Como você avalia o governo Dilma a partir dessa política de isenção fiscal para o uso de agrotóxico no campo brasileiro?
ST: Deixa eu te falar, o governo Dilma está começando agora, não tem nenhum ano, então não dá para responsabilizá-la por essa política. Na verdade esse filme vai servir de alerta para ela também. Muitas das coisas que são ditas no filme, eles [o governo] não têm consciência. Esse filme não é para se vingar de ninguém. É para alertar. Quer dizer, na verdade você mora em Brasília, você está longe do mundo, e alguém diz para você ‘ah, isso é frescura da esquerda, esse problema não existe’, e os relatórios que colocam na sua mesa omitem as pessoas que estão morrendo por lidar diretamente com agrotóxico. [As mortes] vão todas para as vírgulas das estatísticas, entendeu? Acho que está na hora de mostrar que muitas vidas não seriam sacrificadas se a gente partisse para um modelo de agricultura mais humano, mais baseado nos insumos naturais, no manejo da terra, ao invés de intoxicar com veneno os rios, os lagos, os açudes, as pessoas, as crianças que vivem em volta, entendeu? Eu acho que seria ótimo se esse filme chegasse nas mãos da presidente e ela pudesse tomar consciência desse modelo que nós estamos vivendo e, a partir daí, começasse a mudar as políticas.
Brasil de Fato: No documentário você optou por não falar com as empresas produtoras de agrotóxicos. Essa ideia ficou para um outro documentário?
ST: É porque eu não quis fazer um filme que abrisse uma discussão técnica. Se as empresas reclamarem muito e pedirem para falar, eu ouço. Eu já recebi alguns pedidos e deixei as portas abertas. No Ceará eu filmei um cara que trabalha com gado leiteiro que estava morrendo contaminado por causa de uma empresa vizinha. Eu filmei, a empresa vizinha reclamou e eu deixei a porta aberta, dizendo ‘tudo bem, então vamos trabalhar em breve isso num outro filme’. Se as empresas que manipulam e produzem agrotóxico me chamarem para conversar, eu vou. E vou me basear cientificamente na questão porque eles também são craques em enrolar. Querem comprovar que você está comendo veneno e tudo bem (risos). E eu preciso de subsídios para dizer que não, que aquele veneno não é necessário para a minha vida. Nesse primeiro momento, eu quis botar a discussão na mesa. Algumas pessoas já começaram a me assustar, ‘você vai tomar processo’, mas eu estou na vida para viver. Se o cara quiser me processar por um documentário no qual eu falei a verdade, ele processa pois tem o direito. Agora, eu tenho direito, como cineasta, de dizer o que eu penso.
Brasil de Fato: Esse filme será lançado somente no Rio ou em outras capitais também?
ST: Eu estou convidado também para ir para Pernambuco em setembro, mas o filme pode acontecer independente de mim. Esse filme está saindo com o selinho de ‘copie e distribua’. Ele não será vendido. A gente vai fazer algumas cópias e distribuir dentro do sentido de multiplicação, no qual as pessoas recebem as cópias, fazem novas e as distribuem. O ideal é que cada entidade, e são mais de 20 bancando a Campanha, consiga distribuir pelo menos mil unidades. De cara você tem 20 mil cópias para serem distribuídas. E depois nós temos os estudantes, os movimentos sociais e sindicais, os professores. Vai ser uma discussão no Brasil. Temos que levar esse documentário para Brasília, para o Congresso, para a presidente da República, para o ministro da Agricultura, para o Ibama. Todo mundo tem que ver esse filme.
Brasil de Fato: E expectativa é boa então?
ST: Sim. Eu sou um otimista. Sempre fui.
sexta-feira, 1 de julho de 2011
A Enxada e a Lança. E várias estocadas no Jô!
Da série "não estou inspirada/com tempo/ com saco para escrever no blog", mais um vídeo FABULOSO do mais fabuloso (não no sentido de contador de fábulas, mas de incrivelmente sábio e fantástico) ainda Alberto da Costa e Silva no programa imbecilizante do Jô Soares. Um contraste de proporções monumentais, onde o Jô Soares escorrega várias vezes e só não cai por causa da platéia também babaca que o acompanha e consegue achar graça das idiotices que ele faz. Mas vale a pena. Pelo Alberto, claro!
Hasta!
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Hasta!
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segunda-feira, 20 de junho de 2011
quinta-feira, 19 de maio de 2011
"A natureza está fora de nós"
De Eduardo Galeano. O texto completo tá aqui.
Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, qua ndo a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.
Em seus 10 mandamentos, Deus esqueceu-se de mencionar a natureza. Entre as ordens que nos enviou do Monte Sinai, o Senhor poderia ter acrescentado, por exemplo: “Honrarás a natureza, da qual tu és parte.” Mas, isso não lhe ocorreu. Há cinco séculos, qua ndo a América foi aprisionada pelo mercado mundial, a civilização invasora confundiu ecologia com idolatria. A comunhão com a natureza era pecado. E merecia castigo. Segundo as crônicas da Conquista, os índios nômades que usavam cascas para se vestirem jamais esfolavam o tronco inteiro, para não aniquilarem a árvore, e os índios sedentários plantavam cultivos diversos e com períodos de descanso, para não cansarem a terra. A civilização, que vinha impor os devastadores monocultivos de exportação, não podia entender as culturas integradas à natureza, e as confundiu com a vocação demoníaca ou com a ignorância. Para a civilização que diz ser ocidental e cristã, a natureza era uma besta feroz que tinha que ser domada e castigada para que funcionasse como uma máquina, posta a nosso serviço desde sempre e para sempre. A natureza, que era eterna, nos devia escravidão. Muito recentemente, inteiramo-nos de que a natureza se cansa, como nós, seus filhos, e sabemos que, tal como nós, pode morrer assassinada. Já não se fala de submeter a natureza. Agora, até os seus verdugos dizem que é necessário protegê-la. Mas, num ou noutro caso, natureza submetida e natureza protegida, ela está fora de nós. A civilização, que confunde os relógios com o tempo, o crescimento com o desenvolvimento, e o grandalhão com a grandeza, também confunde a natureza com a paisagem, enquanto o mundo, labirinto sem centro, dedica-se a romper seu próprio céu.
domingo, 10 de abril de 2011
Série Reformas Democáticas - Tvvermelho
Série produzida pela Tv Vermelho, do site Vermelho, conveniado ao PCdoB.
Aborda as reformas democráticas que o Brasil precisa. Muito bom!
Aborda as reformas democráticas que o Brasil precisa. Muito bom!
quinta-feira, 31 de março de 2011
Da Educação e do Aikido
O pobre do blog tá abandonado... só pra postar algo, vou divagar um pouco. É que meu lado "político" anda meio desativado... acho que dormir pouco dá nisso. A gente vai ficando meio bitolada...
Mas então cá estou eu, tentando pensar em alguma coisa pra escrever e o que me vem a mente é algo que faço diariamente e que nesses dias tem me angustiado um pouco: dar aulas! Às vezes eu odeio esse meu lado relativista demais, mas fico pensando: afinal, o que é ser um professor? O que é ser um bom professor, formulando melhor? Eu sou uma eterna aluna e por isso, gosto de fazer essas comparações. Porque eu sou "ativa e passiva" ao mesmo tempo (sem maldade!), ensino (ou penso que sim) e aprendo (tb acho que sim) coisas o tempo todo. Então, tenho um monte de idéias sobre o que penso ser o papel de professor ideal, mas depois, no final, eu acho que não existe "receita" pronta. Acho que o bom professor é aquele que se forma o tempo todo, como um artesão que se molda constantemente, de acordo com a forma que deseja tomar. E faz isso com amor e cuidado, porque quer a forma bem feita. Às vezes o negócio fica meio desajeitado, mas depois de uns retoques, fica melhor do que era. Mas também o bom professor é meio intuitivo. Às vezes não sabe bem que forma tomar, como vai ser, no que vai dar... ele vai indo, devagarinho... Eu aprendo muito com o Aikido, outra atividade da qual sou aluna (e esta eu sei que quando acho que aprendo, descubro que não sei nada) e gosto muito de ler os ensinamentos dos grandes aikidoístas, pois eles desenvolveram uma leitura muito peculiar da vida. O Gozo Shioda Sensei diz que o bom praticante nunca tem uma forma pronta na cabeça na hora de executar um movimento. Tudo depende do momento, da forma como o ataque vem, da velocidade, da nossa situação, ... então, depois que preenchemos nossa mente com o conteúdo, a ação deve ser livre e intuitiva. E isso tb é uma ferramenta de ação para o professor. Devemos estar sempre nos aprimorando, estudando, aprendendo, mas também deixando o momento falar. E só podemos fazer isso quando temos segurança da nossa capacidade. Assim como numa situação real de conflito, quando temos segurança e confiamos e nós mesmos, fazemos com que os outros confiem tb. Mesmo que seja a confiança de que não podem nos enfrentar, hehe. Mas isso é pro Gozo Shioda e demais senseis... Para nós, reles professores, estudantes, praticantes, profissionais das mais diversas áreas, o negócio é seguir no caminho. Quem sabe um dia a gente chega lá!
Buenas, depois dessa salada de idéias meio desconexas, meio confusas, meio meio... a conclusão que eu quero chegar é que a nossa busca (aí voltando pros professores) deve ser a de um caminho que nos propicie encantamento e decepções, dificuldades e sucessos, para que possamos achar a fórmula do equilíbrio na segurança de estarmos fazendo algo que amamos (tá, às vezes odiamos). É uma possibilidade de caminho... Eu venho pensando nisso :)
Tá, já dei um oi pro blog. Outro dia eu volto!
Hasta!
Mas então cá estou eu, tentando pensar em alguma coisa pra escrever e o que me vem a mente é algo que faço diariamente e que nesses dias tem me angustiado um pouco: dar aulas! Às vezes eu odeio esse meu lado relativista demais, mas fico pensando: afinal, o que é ser um professor? O que é ser um bom professor, formulando melhor? Eu sou uma eterna aluna e por isso, gosto de fazer essas comparações. Porque eu sou "ativa e passiva" ao mesmo tempo (sem maldade!), ensino (ou penso que sim) e aprendo (tb acho que sim) coisas o tempo todo. Então, tenho um monte de idéias sobre o que penso ser o papel de professor ideal, mas depois, no final, eu acho que não existe "receita" pronta. Acho que o bom professor é aquele que se forma o tempo todo, como um artesão que se molda constantemente, de acordo com a forma que deseja tomar. E faz isso com amor e cuidado, porque quer a forma bem feita. Às vezes o negócio fica meio desajeitado, mas depois de uns retoques, fica melhor do que era. Mas também o bom professor é meio intuitivo. Às vezes não sabe bem que forma tomar, como vai ser, no que vai dar... ele vai indo, devagarinho... Eu aprendo muito com o Aikido, outra atividade da qual sou aluna (e esta eu sei que quando acho que aprendo, descubro que não sei nada) e gosto muito de ler os ensinamentos dos grandes aikidoístas, pois eles desenvolveram uma leitura muito peculiar da vida. O Gozo Shioda Sensei diz que o bom praticante nunca tem uma forma pronta na cabeça na hora de executar um movimento. Tudo depende do momento, da forma como o ataque vem, da velocidade, da nossa situação, ... então, depois que preenchemos nossa mente com o conteúdo, a ação deve ser livre e intuitiva. E isso tb é uma ferramenta de ação para o professor. Devemos estar sempre nos aprimorando, estudando, aprendendo, mas também deixando o momento falar. E só podemos fazer isso quando temos segurança da nossa capacidade. Assim como numa situação real de conflito, quando temos segurança e confiamos e nós mesmos, fazemos com que os outros confiem tb. Mesmo que seja a confiança de que não podem nos enfrentar, hehe. Mas isso é pro Gozo Shioda e demais senseis... Para nós, reles professores, estudantes, praticantes, profissionais das mais diversas áreas, o negócio é seguir no caminho. Quem sabe um dia a gente chega lá!
Buenas, depois dessa salada de idéias meio desconexas, meio confusas, meio meio... a conclusão que eu quero chegar é que a nossa busca (aí voltando pros professores) deve ser a de um caminho que nos propicie encantamento e decepções, dificuldades e sucessos, para que possamos achar a fórmula do equilíbrio na segurança de estarmos fazendo algo que amamos (tá, às vezes odiamos). É uma possibilidade de caminho... Eu venho pensando nisso :)
Tá, já dei um oi pro blog. Outro dia eu volto!
Hasta!
terça-feira, 8 de março de 2011
"A protagonista"
"No teatro, identificada com a protagonista, cada uma de nós sente-se um pouco Fedra, Cleópatra, Desdêmona. No entanto, a transbordante plenitude que alcançamos por empréstimo pode ser nossa. Basta sermos protagonistas duma aventura singular, que é a nossa própria vida."
Carmem da Silva para a revista Cláudia em 1963.
Carmem da Silva para a revista Cláudia em 1963.
quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011
A dupla Fo-Fo põe Porto Alegre à venda

Os portoalegrenses mais críticos e conscientes já perceberam que desde que o ex-prefeito Fogaça assumiu a prefeitura, a qualidade de vida na Cidade vem decaíndo rapidamente. Os serviços públicos estão piorando cada vez mais com o claro propósito de encaminhá-los para a iniciativa privada. O DMLU é um exemplo. Lixo acumulado nas ruas, falta de capina, serviços anteriormente gratuitos sendo cobrados, terceirização gradativa... Sem falar no que acontece nos "porões" desses serviços e que não ficamos sabendo. A água da Zona Sul de Porto Alegre é um fiasco. Já postei neste blog imagens da cor da água que saía da minha torneira... Seguidamente tiro roupas amarelas da máquina de lavar que anteriormente eram brancas. A Carris, empresa administrada pela Prefeitura e que era um modelo de transporte coletivo para o país ao que parece virou colecionadora de sucata ou ferro velho pois vai na contramão daquilo que se entende por modernização do serviço de transporte público. Na troca de ônibus que presenciei, onde tiravam de circulação ônibus antigos e compravam "novos", entraram os modelos que se pretendia retirar: sem ar condicionado e com motor dianteiro, o que exige aquelas escadas apertadas que os idosos, grávidas e portadores de deficiência física tem grande dificuldade para subir. Obviamente aqueles que compram os ônibus não presisam usufruir deles! São os mesmos que se irritam pelo fato dos pobres estarem comprando carros, dificultando sua agilidade no trânsito. Sobre este assunto, já viu este vídeo?
Buenas, para terminar o assunto, vou incluir mais um item na lista dos serviços que a prefeitura parece fazer questão de precarizar e empurrar para a iniciativa privada: a saúde. Este texto recebi por e-mail do Sindicato dos Municipários de Poa e fala sobre a aprovação do Instituto Municipal da Estratégia da Saúde da Família, nome bonitinho para terceirização!
Hasta!
SEM DIÁLOGO
Prefeito desrespeita servidores e amplia privatização da Saúde
A aprovação do projeto que cria o Instituto Municipal da Estratégia da Saúde da Família (IMESF), com o voto dos 26 vereadores da bancada do governo, na madrugada do dia 15 de fevereiro, na Câmara de Porto Alegre, demonstra o verdadeiro perfil da gestão do prefeito Fortunati, que usa a situação de maioria na Câmara para seguir o compromisso político de ampliar as terceirizações e avançar na privatização da saúde.
O Sindicato dos Municipários de Porto Alegre repudia a postura autoritária do prefeito municipal, que desconsiderou a mobilização da sociedade e do Fórum de Entidades em Defesa do SUS, que pedia a abertura do debate sobre o projeto.
No curto período em que o tema ganhou destaque na imprensa, Fortunati propositadamente usou os servidores públicos como desculpa para os graves problemas de gestão que ocorrem no SUS sob responsabilidade do município. Fomos atacados sem que houvesse possibilidade de defesa, usados como bode expiatório.
Essa não é a primeira vez que o atual prefeito usa o servidor público para encobrir os problemas gerados por anos de corrupção, pela falta de manutenção do patrimônio público e por projetos falaciosos como o do IMESF, que só resultaram em despesas extras sem nenhum resultado efetivo. Logo no início dos seus dois anos e meio de gestão como prefeito, Fortunati colocou sobre o servidor público a culpa da morte de dois jovens ocorrida na Capital, como forma de encobrir o péssimo serviço prestado pelas empresas terceirizadas relacionadas aos setores de iluminação pública e saneamento.
À época, manifestamos a posição do Sindicato, pedindo a restauração da verdade e maior controle sobre o processo de terceirização. Nossa mobilização não foi escutada pelo prefeito, nem levada em consideração.
Seguindo o compromisso que orienta todas as ações do SIMPA, que é o de defender os servidores públicos municipais, lutando pela preservação das responsabilidades do setor público, pelo salário digno e por condições de trabalho, integramos a mobilização contra a criação do IMESF e a política de fundações para a transferência de obrigações públicas à iniciativa privada.
Nossa luta também representa os interesses da sociedade. O “estado mínimo” não atende ao cidadão. Apesar de todo o desrespeito com que somos tratados, é o servidor público que mantém a estrutura de serviços funcionando, mesmo com todo o sucateamento provocado pelos desmandos políticos.
A terceirização e a transferência de responsabilidades no setor público serve somente àqueles que almejam o poder, mas não gostam do trabalho inerente à função, que é administrar o setor público seguindo as normas legais conquistadas pelos cidadãos.
Vereadores que votaram A FAVOR do IMESF – TERCEIRIZAÇÃO DA SAÚDE
Alceu Brasinha
Bernardino Vendruscolo
Beto Moesch
DJ Cássia
Dr. Raul
Dr. Thiago Duarte
Elias Vidal
Elói Guimarães
Haroldo de Souza
Idenir Cecchin
João Antônio Dib
João Carlos Nedel
Luciano Marcantônio
Luiz Braz
Mario Fraga
Mário Manfro
Mauro Zacher
Nelcir Tessaro
Nilo Santos
Paulinho Rubem Berta
Professor Garcia
Reginaldo Pujol
Sebastião Melo
Tarciso Flecha Negra
Toni Proença
Waldir Canal
Vereadores que votaram CONTRA o IMESF – em defesa do SUS
Adeli Sell
Airton Ferronato
Aldacir Oliboni
Carlos Todeschini
Engenheiro Comassetto
Fernanda Melchiona
Maria Celeste
Mauro Pinheiro
Pedro Ruas
Sofia Cavedon
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
"As sacolas carregarão as madames" ou "a vingança dos empacotadores".

"O FUNCIONÁRIO do supermercado empacota minhas compras. A freguesa se aproxima com sua cesta e pergunta: "Oi, rapazinho, onde fica a farinha de mandioca?". "Ali, senhora, corredor 3." "Obrigada." "Disponha."
A cena seria trivial, não fosse um pequeno detalhe: o "rapazinho" já passava dos quarenta. Teria a mulher uma particularíssima disfunção neurológica, chamada, digamos etariofasia aguda? Mostra-se a ela uma imagem do Papai Noel e outra do Neymar, pergunta-se: "Quem é o mais velho?", ela hesita, seu indicador vai e vem entre as duas fotos, como um limpador de para-brisa e... Não consegue responder.
Infelizmente, não me parece que a mulher sofresse de uma doença rara. Pelo contrário. A infantilização dos pobres e outros grupos socialmente desvalorizados é recurso antigo, que funciona naturalizando a inferioridade de quem está por baixo e, de quebra, ainda atenua a culpa de quem tá por cima.
Afinal, se fulano é apenas um "rapazinho", faz sentido que ele nos sirva, nos obedeça e, em última instância, submeta-se à tutela de seus senhores, de suas senhoras.
Nos EUA, até a metade do século passado, os brancos chamavam os negros de "boys". Em resposta, surgiu o "man", com o qual os negros passaram a tratar-se uns aos outros, para afirmarem sua integridade.
No Brasil, na segunda década do século XXI, o expediente persiste.
Faz sentido. Em primeiro lugar, porque persiste a desigualdade, mas também porque todo recurso que escamoteie os conflitos encontra por aqui solo fértil; combina com nosso sonso ufanismo: neste país, todo mundo se ama, não?
Pensando nisso, enquanto pagava minhas compras, já começando a ficar com raiva da mulher, imaginei como chamaria o funcionário do supermercado, se estivesse no lugar dela. Então, me vi dizendo: "Ei, "amigo", você sabe onde fica a farinha de mandioca?", e percebi que, pela via oposta, havia caído na mesma arapuca.
Em vez de reafirmar a diferença, reduzindo-o ao status de criança, tentaria anulá-la, promovendo-o ao patamar da amizade. Mas, como nunca havíamos nos visto antes, a máscara cairia, revelando o que eu tentava ocultar: a distância entre quem empurra o carrinho e quem empacota as compras.
"Rapazinho" e "amigo" -ou "chefe", "meu rei", "brother", "queridão"- são dois lados da mesma moeda: a incapacidade de ver, naquele que me serve, um cidadão, um igual.
Não é de se admirar que, nesta sociedade ainda marcada pela mentalidade escravocrata, haja uma onda de preconceito com o alargamento da classe C, que tornou-se explícito nas manifestações de ódio aos nordestinos, via Twitter e Facebook, no fim do ano passado.
Mas o bordão que melhor exemplifica o susto e o desprezo da classe A pelos pobres, ou ex-pobres que agora têm dinheiro para frequentar certos ambientes antes fechados a eles, é: "Credo, esse aeroporto tá parecendo uma rodoviária!". De tão repetido, tem tudo para se tornar o "Você sabe com quem está falando?!" do início do século XXI. Se o Brasil continuar crescendo e distribuindo renda, os rapazinhos, que horror!, ganharão cada vez mais espaço e a coisa só deve piorar. É preocupante. Nesse ritmo, num futuro próximo, quem é que vai empacotar nossas compras?"
terça-feira, 4 de janeiro de 2011
"O império do consumo"
GENIAL como sempre: Eduardo Galeano!
Do Diário da Liberdade.
A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?
A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.
A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.
"Gente infeliz os que vivem a comparar-se", lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. "Quando não tens nada, pensas que não vales nada", diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: "Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações".
Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a "obesidade severa" aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.
O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.
Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.
Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald's, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald's não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald's dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald's de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.
Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald's viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald's, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.
As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.
Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.
Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.
A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.
As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.
Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam "porque as pessoas têm o gosto de juntar-se". Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?
O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.
O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.
A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.
Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.
O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?
A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.
A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
Do Diário da Liberdade.
A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O sistema fala em nome de todos, dirige a todos as suas ordens imperiosas de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas sem remédio: para quase todos esta aventura começa e termina no écran do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina por ter nada mais que dívidas para pagar dívidas as quais geram novas dívidas, e acaba a consumir fantasias que por vezes materializa delinquindo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efémera, que se esgota como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas para que outro mundo vamos mudar-nos?
A explosão do consumo no mundo atual faz mais ruído do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco: quem bebe por conta, emborracha-se o dobro. O carrossel aturde e confunde o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas a cultura de consumo soa muito, tal como o tambor, porque está vazia. E na hora da verdade, quando o estrépito cessa e acaba a festa, o borracho acorda, só, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos partidos que deve pagar.
A expansão da procura choca com as fronteiras que lhe impõe o mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam o ar, e ao mesmo tempo necessitam que andem pelo chão, como acontece, os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho.
O direito ao desperdício, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormir as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores são submetidas a luz contínua, para que cresçam mais depressa. Nas fábricas de ovos, as galinhas também estão proibidas de ter a noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa se se considerar que os EUA têm apenas cinco por cento da população mundial.
"Gente infeliz os que vivem a comparar-se", lamenta uma mulher no bairro do Buceo, em Montevideo. A dor de já não ser, que outrora cantou o tango, abriu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. "Quando não tens nada, pensas que não vales nada", diz um rapaz no bairro Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Macorís: "Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas e vivem suando em bicas para pagar as prestações".
Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todo lado as suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.
O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a "obesidade severa" aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou uns 40% nos últimos 16 anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.
O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel par trabalhar e para ver televisão. Sentado perante o pequeno écran, passa quatro horas diárias a devorar comida de plástico.
Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está a conquistar os paladares do mundo e a deixar em farrapos as tradições da cozinha local. Os costumes do bom comer, que veem de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, são um patrimônio coletivo que de algum modo está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos.
Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão a ser espezinhadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida à escala mundial, obra da McDonald's, Burger King e outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.
O campeonato mundial de futebol de 98 confirmou-nos, entre outras coisas, que o cartão MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola brinda eterna juventude e o menu do MacDonald's não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército de McDonald's dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O arco duplo desse M serviu de estandarte durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald's de Moscou, inaugurado em 1990 com fanfarras, simbolizaram a vitória do ocidente com tanta eloquência quanto o desmoronamento do Muro de Berlim.
Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega aos seus empregados a liberdade de filiar-se a qualquer sindicato. A McDonald's viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde opera. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama a Macfamília, tentaram sindicalizar-se num restaurante de Montreal, no Canadá: o restaurante fechou. Mas em 1998, outros empregados da McDonald's, numa pequena cidade próxima a Vancouver, alcançaram essa conquista, digna do Livro Guinness.
As massas consumidoras recebem ordens num idioma universal: a publicidade conseguiu o que o esperanto quis e não pôde. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos em publicidade duplicaram no mundo. Graças a ela, as crianças pobres tomam cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite, e o tempo de lazer vai-se tornando tempo de consumo obrigatório.
Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor e o televisor tem a palavra. Comprados a prazo, esse animalejo prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos inteiram-se das vantajosas taxas de juros que este ou aquele banco oferece.
Os peritos sabem converter as mercadorias em conjuntos mágicos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.
As angústias enchem-se atulhando-se de coisas, ou sonhando fazê-lo. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te escolhem e te salvam do anonimato multitudinário.
A publicidade não informa acerca do produto que vende, ou raras vezes o faz. Isso é o que menos importa. A sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem o senhor quer converter-se comprando esta loção de fazer a barba? O criminólogo Anthony Platt observou que os delitos da rua não são apenas fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social do êxito, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Sempre ouvi dizer que o dinheiro não produz a felicidade, mas qualquer espectador pobre de TV tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro produz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram as primeiras culturas, em fins do paleolítico. A população mundial urbaniza-se, os camponeses fazem-se cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação, e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em toda parte, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes.
As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os que esperam veem passar a vida e morrem a bocejar; nas cidades, a vida ocorre, e chama. Apinhados em tugúrios [casebres], a primeira coisa que descobrem os recém chegados é que o trabalho falta e os braços sobram.
Enquanto nascia o século XIV, frei Giordano da Rivalto pronunciou em Florença um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam "porque as pessoas têm o gosto de juntar-se". Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem se encontra com quem? Encontra-se a esperança com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas?
O mundo inteiro tende a converter-se num grande écran de televisão, onde as coisas se olham mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de comboios, que até há pouco eram espaços de encontro entre pessoas, estão agora a converter-se em espaços de exibição comercial.
O shopping center, ou shopping mall, vitrine de todas as vitrines, impõe a sua presença avassaladora. As multidões acorrem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que os seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora submete-se ao bombardeio da oferta incessante e extenuante.
A multidão, que sobe e baixa pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago, e para ver e ouvir não é preciso pagar bilhete. Os turistas vindos das povoações do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bênçãos da felicidade moderna, posam para a foto, junto às marcas internacionais mais famosas, como antes posavam junto à estátua do grande homem na praça.
Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana no centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com as suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa onde não são convidados, mas podem ser observadores. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.
A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso mediático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta ao serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, resultam ser voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera.
O dinheiro voa à velocidade da luz: ontem estava ali, hoje está aqui, amanhã, quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial. Paradoxalmente, os shopping centers, reinos do fugaz, oferecem com o máximo êxito a ilusão da segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, para além das turbulências da perigosa realidade do mundo.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como esgotam, pouco depois de nascer, as imagens que dispara a metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem tréguas, no mercado. Mas a que outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo?
A sociedade de consumo é uma armadilha caça-bobos. Os que têm a alavanca simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta.
A injustiça social não é um erro a corrigir, nem um defeito a superar: é uma necessidade essencial. Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
O futuro e o presente
O que nós sabemos? Sobre nós mesmos, quese nada, eu diria... E sobre o mundo? "Depende de que mundo estamos falando" alguém diria. Desse mesmo, desse mundo objetivo, desse que a gente pisa, onde a gente acorda, onde a gente cria ou recria formas de viver, ou onde a gente só copia (?) os modelos que nos foram dados ha séculos atrás... Desse onde a gente ama, odeia, chora, ri, tropeça, cai, levanta, trabalha (em papéis, pedras, gentes...)...
Eu não sei, mas arrisco dizer que desse mundo não sabemos nada. Alguns de nós, mais rebeldes, passam a vida tentando saber. Geralmente morremos nos dando conta de que a nossa vida INTEIRA deu conta só de uma mínima parcela, uma minúscula e brilhante parcela. Então, os outros rebeldes (chatos pra maioria) vão lá e catam aquela minúscula parcela luminosa. Vão catando e juntando várias... Delas, criam, às vezes, mais uma ou duas... E no fim, a gente vai conseguindo ver partezinhas, pedacinhos de uma realidade que chamamos de mundo. E talvez, respondendo ao meu interlocutor imaginário, de um dos mundos...
E o que isso significa? Bom, pra mim significa que sabemos de partezinhas cheias de erros, mas com algumas verdades. E estas verdades nos assustam... às vezes... E incomodam alguns (sempre) comprometidos em ocultar ou pelo menos desacreditar o que as luzinhas revelam.
Aqui vai um texto que pra mim representam vários pontos luminosos que foram se unindo. Falam de uma realidade que não é diretamente a nossa. Mas é a nossa, porque é desse mundo. Então, voilà!
Ah, tirei do Vi o Mundo que tirou do TruthDig.com e é do Chris Hedges. Boa leitura!
2011: A Brave New Dystopia
by Chris Hedges
As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Brave New World. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.
Temos sido gradualmente desempoderados por um estado corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Brave New World para 1984. O estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.
[...]
Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão. Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.
“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.
O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O estado corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.
O estado corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Brave New World, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.
O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.
Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , seja no noticiário noturno ou nos programas como “Oprah”, nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.
Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.
[...]
A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Brave New World de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.
O estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.
Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.
A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.
Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.
“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.
O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.
Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR. A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.
“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.
Eu não sei, mas arrisco dizer que desse mundo não sabemos nada. Alguns de nós, mais rebeldes, passam a vida tentando saber. Geralmente morremos nos dando conta de que a nossa vida INTEIRA deu conta só de uma mínima parcela, uma minúscula e brilhante parcela. Então, os outros rebeldes (chatos pra maioria) vão lá e catam aquela minúscula parcela luminosa. Vão catando e juntando várias... Delas, criam, às vezes, mais uma ou duas... E no fim, a gente vai conseguindo ver partezinhas, pedacinhos de uma realidade que chamamos de mundo. E talvez, respondendo ao meu interlocutor imaginário, de um dos mundos...
E o que isso significa? Bom, pra mim significa que sabemos de partezinhas cheias de erros, mas com algumas verdades. E estas verdades nos assustam... às vezes... E incomodam alguns (sempre) comprometidos em ocultar ou pelo menos desacreditar o que as luzinhas revelam.
Aqui vai um texto que pra mim representam vários pontos luminosos que foram se unindo. Falam de uma realidade que não é diretamente a nossa. Mas é a nossa, porque é desse mundo. Então, voilà!
Ah, tirei do Vi o Mundo que tirou do TruthDig.com e é do Chris Hedges. Boa leitura!
2011: A Brave New Dystopia
by Chris Hedges
As duas grandiosas visões sobre uma futura distopia foram as de George Orwell em 1984 e de Aldous Huxley em Brave New World. O debate entre aqueles que assistiram nossa decadência em direção ao totalitarismo corporativo era sobre quem, afinal, estava certo. Seria, como Orwell escreveu, dominado pela vigilância repressiva e pelo estado de segurança que usaria formas cruas e violentas de controle? Ou seria, como Huxley anteviu, um futuro em que abraçariamos nossa opressão embalados pelo entretenimento e pelo espetáculo, cativados pela tecnologia e seduzidos pelo consumismo desenfreado? No fim, Orwell e Huxley estavam ambos certos. Huxley viu o primeiro estágio de nossa escravidão. Orwell anteviu o segundo.
Temos sido gradualmente desempoderados por um estado corporativo que, como Huxley anteviu, nos seduziu e manipulou através da gratificação dos sentidos, dos bens de produção em massa, do crédito sem limite, do teatro político e do divertimento. Enquanto estávamos entretidos, as leis que uma vez mantiveram o poder corporativo predatório em cheque foram desmanteladas, as que um dia nos protegeram foram reescritas e nós fomos empobrecidos. Agora que o crédito está acabando, os bons empregos para a classe trabalhadora se foram para sempre e os bens produzidos em massa se tornaram inacessíveis, nos sentimos transportados do Brave New World para 1984. O estado, atulhado em déficits maciços, em guerras sem fim e em golpes corporativos, caminha em direção à falência.
[...]
Orwell nos alertou sobre um mundo em que os livros eram banidos. Huxley nos alertou sobre um mundo em que ninguém queria ler livros. Orwell nos alertou sobre um estado de guerra e medo permanentes. Huxley nos alertou sobre uma cultura de prazeres do corpo. Orwell nos alertou sobre um estado em que toda conversa e pensamento eram monitorados e no qual a dissidência era punida brutalmente. Huxley nos alertou sobre um estado no qual a população, preocupada com trivialidades e fofocas, não se importava mais com a verdade e a informação. Orwell nos viu amedrontados até a submissão. Mas Huxley, estamos descobrindo, era meramente o prelúdio de Orwell. Huxley entendeu o processo pelo qual seríamos cúmplices de nossa própria escravidão. Orwell entendeu a escravidão. Agora que o golpe corporativo foi dado, estamos nus e indefesos. Estamos começando a entender, como Karl Marx sabia, que o capitalismo sem limites e desregulamentado é uma força bruta e revolucionária que explora os seres humanos e o mundo natural até a exaustão e o colapso.
“O partido busca todo o poder pelo poder”, Orwell escreveu em 1984. “Não estamos interessados no bem dos outros; estamos interessados somente no poder. Não queremos riqueza ou luxo, vida longa ou felicidade; apenas poder, poder puro. O que poder puro significa você ainda vai entender. Nós somos diferentes das oligarquias do passado, já que sabemos o que estamos fazendo. Todos os outros, mesmo os que se pareciam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos chegaram perto pelos seus métodos, mas eles nunca tiveram a coragem de reconhecer seus próprios motivos. Eles fizeram de conta, ou talvez tenham acreditado, que tomaram o poder sem querer e por um tempo limitado, e que logo adiante havia um paraíso em que os seres humanos seriam livres e iguais. Não somos assim. Sabemos que ninguém toma o poder com a intenção de entregá-lo. Poder não é um meio; é um fim. Ninguém promove uma ditadura com o objetivo de assegurar a revolução; se faz a revolução para assegurar a ditadura. O objeto da perseguição é perseguir. O objeto de torturar é a tortura. O objeto do poder é o poder”.
O filósofo político Sheldon Wolin usa o termo “totalitarismo invertido” no livro “Democracia Ltda.” para descrever nosso sistema político. É um termo que não faria sentido para Huxley. No totalitarismo invertido, as sofisticadas tecnologias de controle corporativo, intimidação e manipulação de massas, que superam em muito as empregadas por estados totalitários prévios, são eficazmente mascaradas pelo brilho, barulho e abundância da sociedade de consumo. Participação política e liberdades civis são gradualmente solapadas. O estado corporativo, escondido sob a fumaça da indústria de relações públicas, da indústria do entretenimento e do materialismo da sociedade de consumo, nos devora de dentro para fora. Não deve nada a nós ou à Nação. Faz a festa em nossa carcaça.
O estado corporativo não encontra a sua expressão em um líder demagogo ou carismático. É definido pelo anonimato e pela ausência de rosto de uma corporação. As corporações, que contratam porta-vozes atraentes como Barack Obama, controlam o uso da ciência, da tecnologia, da educação e dos meios de comunicação de massa. Elas controlam as mensagens do cinema e da televisão. E, como no Brave New World, elas usam as ferramentas da comunicação para aumentar a tirania. Nosso sistema de comunicação de massas, como Wolin escreveu, “bloqueia, elimina o que quer que proponha qualificação, ambiguidade ou diálogo, qualquer coisa que esfraqueça ou complique a força holística de sua criação, a sua completa capacidade de influenciar”.
O resultado é um sistema monocromático de informação. Cortejadores das celebridades, mascarados de jornalistas, experts e especialistas, identificam nossos problemas e pacientemente explicam seus parâmetros. Todos os que argumentam fora dos parâmetros são desprezados como chatos irrelevantes, extremistas ou membros da extrema esquerda. Críticos sociais prescientes, como Ralph Nader e Noam Chomsky, são banidos. Opiniões aceitáveis cabem, mas apenas de A a B. A cultura, sob a tutela dos cortesãos corporativos, se torna, como Huxley notou, um mundo de conformismo festivo, de otimismo sem fim e fatal.
Nós nos ocupamos comprando produtos que prometem mudar nossas vidas, tornar-nos mais bonitos, confiantes e bem sucedidos — enquanto perdemos direitos, dinheiro e influência. Todas as mensagens que recebemos pelos meios de comunicação , seja no noticiário noturno ou nos programas como “Oprah”, nos prometem um amanhã mais feliz e brilhante. E isso, como Wolin apontou, é “a mesma ideologia que convida os executivos de corporações a exagerar lucros e esconder prejuízos, sempre com um rosto feliz”. Estamos hipnotizados, Wolin escreve, “pelo contínuo avanço tecnológico” que encoraja “fantasias elaboradas de poder individual, juventude eterna, beleza através de cirurgia, ações medidas em nanosegundos: uma cultura dos sonhos, de cada vez maior controle e possibilidade, cujos integrantes estão sujeitos à fantasia porque a grande maioria tem imaginação, mas pouco conhecimento científico”.
Nossa base manufatureira foi desmantelada. Especuladores e golpistas atacaram o Tesouro dos Estados Unidos e roubaram bilhões de pequenos acionistas que tinham poupado para a aposentadoria ou o estudo. As liberdades civis, inclusive o habeas corpus e a proteção contra a escuta telefônica sem mandado, foram enfraquecidas. Serviços básicos, inclusive de educação pública e saúde, foram entregues a corporações para explorar em busca do lucro. As poucas vozes dissidentes, que se recusam a se engajar no papo feliz das corporações, são desprezadas como freaks.
[...]
A fachada está desabando. Quanto mais gente se der conta de que fomos usados e roubados, mais rapidamente nos moveremos do Brave New World de Huxley para o 1984 de Orwell. O público, a certa altura, terá de enfrentar algumas verdades doloridas. Os empregos com bons salários não vão voltar. Os maiores déficits da história humana significam que estamos presos num sistema escravocrata de dívida que será usado pelo estado corporativo para erradicar os últimos vestígios de proteção social dos cidadãos, inclusive a Previdência Social.
O estado passou de uma democracia capitalista para o neo-feudalismo. E quando essas verdades se tornarem aparentes, a raiva vai substituir o conformismo feliz imposto pelas corporações. O vazio de nossos bolsões pós-industriais, onde 40 milhões de norte-americanos vivem em estado de pobreza e dezenas de milhões na categoria chamada “perto da pobreza”, junto com a falta de crédito para salvar as famílias do despejo, das hipotecas e da falência por causa dos gastos médicos, significam que o totalitarismo invertido não vai mais funcionar.
Nós crescentemente vivemos na Oceania de Orwell, não mais no Estado Mundial de Huxley. Osama bin Laden faz o papel de Emmanuel Goldstein em 1984. Goldstein, na novela, é a face pública do terror. Suas maquinações diabólicas e seus atos de violência clandestina dominam o noticiário noturno. A imagem de Goldstein aparece diariamente nas telas de TV da Oceania como parte do ritual diário da nação, os “Dois Minutos de Ódio”. E, sem a intervenção do estado, Goldstein, assim como bin Laden, vai te matar. Todos os excessos são justificáveis na luta titânica contra o diabo personificado.
A tortura psicológica do cabo Bradley Manning — que está preso há sete meses sem condenação por qualquer crime — espelha o dissidente Winston Smith de 1984. Manning é um “detido de segurança máxima” na cadeia da base dos Fuzileiros Navais de Quantico, na Virginia. Eles passa 23 das 24 horas do dia sozinho. Não pode se exercitar. Não pode usar travesseiro ou roupa de cama. Médicos do Exército enchem Manning de antidepressivos. As formas cruas de tortura da Gestapo foram substituídas pelas técnicas refinadas de Orwell, desenvolvidas por psicólogos do governo, para tornar dissidentes como Manning em vegetais. Quebramos almas e corpos. É mais eficaz. Agora todos podemos ir ao temido quarto 101 de Orwell para nos tornarmos obedientes e mansos.
Essas “medidas administrativas especiais” são regularmente impostas em nossos dissidentes, inclusive em Syed Fahad Hasmi, que ficou preso sob condições similares durante três anos antes do julgamento. As técnicas feriram psicologicamente milhares de detidos em nossas cadeias secretas em todo o mundo. Elas são o exemplo da forma de controle em nossas prisões de segurança máxima, onde o estado corporativo promove a guerra contra nossa sub-classe política – os afro-americanos. É o presságio da mudança de Huxley para Orwell.
“Nunca mais você será capaz de ter um sentimento humano”, o torturador de Winston Smith diz a ele em 1984.”Tudo estará morto dentro de você. Nunca mais você será capaz de amar, de ter amigos, do prazer de viver, do riso, da curiosidade, da coragem ou integridade. Você será raso. Vamos te apertar até esvaziá-lo e vamos encher você de nós”.
O laço está apertando. A era do divertimento está sendo substituída pela era da repressão. Dezenas de milhões de cidadãos tiveram seus dados de e-mail e de telefone entregues ao governo. Somos a cidadania mais monitorada e espionada da história humana. Muitos de nós temos nossa rotina diária registrada por câmeras de segurança. Nossos hábitos ficam gravados na internet. Nossas fichas são geradas eletronicamente. Nossos corpos são revistados em aeroportos e filmados por scanners. Anúncios públicos, selos de inspeção e posters no transporte público constantemente pedem que relatemos atividade suspeita. O inimigo está em toda parte.
Aqueles que não cumprem com os ditames da guerra contra o terror, uma guerra que, como Orwell notou, não tem fim, são silenciados brutalmente. Medidas draconianas de segurança foram usadas contra protestos no G-20 em Pittsburgh e Toronto de forma desproporcional às manifestações de rua. Mas elas mandaram uma mensagem clara — NÃO TENTE PROTESTAR. A investigação do FBI contra ativistas palestinos e que se opõem à guerra, que em setembro resultou em buscas em casas de Minneapolis e Chicago, é uma demonstração do que espera aqueles que desafiam o Newspeak oficial. Os agentes — ou a Polícia do Pensamento — apreenderam telefones, computadores, documentos e outros bens pessoais. Intimações para aparecer no tribunal já foram enviadas a 26 pessoas. As intimações citam leis federais que proíbem “dar apoio material ou recursos para organizações terroristas estrangeiras”. O Terror, mesmo para aqueles que não tem nada a ver com terror, se torna o instrumento usado pelo Big Brother para nos proteger de nós mesmos.
“Você está começando a entender o mundo que estamos criando?”, Orwell escreveu. “É exatamente o oposto daquelas Utopias estúpidas que os velhos reformistas imaginaram. Um mundo de medo, traição e tormento, um mundo em que se atropela e se é atropelado, um mundo que, ao se sofisticar, vai se tornar cada vez mais cruel”.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Ponto Final
Maridão na campanha Ponto Final, pelo fim da violência contra as mulheres. Tá bem que ele me deixa meio roxa as vezes, mas no tatame pode, rsrsrs!!!
sábado, 20 de novembro de 2010
Blackbird

Blackbird
McCartney (e Lenon?)
Blackbird singing in the dead of the night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arise.
Blackbird singing in the dead of the night
Take these sunken eyes and learn to see
All your life
You were only waiting for this moment to be free.
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird fly, Blackbird fly
Into the light of the dark black night.
Blackbird singing in the dead of the night
Take these broken wings and learn to fly
All your life
You were only waiting for this moment to arive
You were only waiting for this moment to arive
You were only waiting for this moment to arive.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
"República é pra quem quer!"

Surrupiei esse texto do Sul 21, mais especificamente da página do Marcelo Carneiro da Cunha, escritor e jornalista gaúcho.
É sobre o 15 de novembro, sobre a república e sobre a República (com R maiúsculo mesmo) que estamos construindo a oito anos. Vale a pena!
Pois cá estamos nós, dia 15 de novembro, uma das grandes datas e mais uma das que pouco pensamos a respeito, em nossa relação de distância e ceticismo para com grandes datas, nós brasileiros.
Eu meio gosto, meio não gosto dessa nossa iconoclastia. Por um lado, ela nos protege de palavras grandes, usadas pelos grandes, com objetivos que beneficiam a eles. Pátria é uma delas. Sempre acho que pátria é coisa deles, país é coisa nossa. Nação é coisa nossa. Cultura é coisa nossa. E acho que fazemos questão de marcar a diferença, de celebrar o que é nosso enquanto eles tentam convencer a gente a celebrar o que é deles. E, em geral, não conseguem. Lembram do 31 de março?
Peguemos a República, por exemplo. Como quase todo o resto na nossa história, ela foi uma criação de um grupo mesclado entre positivistas, maçons, maçons positivistas, anti-monarquistas influenciados pela Revolução Francesa e pelos nossos vizinhos americanos, cansados de sermos o único bloco dos nós-sozinhos com a nossa improvável e anacrônica monarquia e com a escravidão que sobrevivia graças a ela.
Militares positivistas e outros grupos resolveram que não dava mais pra pagar o mico de termos um imperador sendo algo tão pouco parecido com um império, fora o tamanho. E lá fomos nós, sem maiores tiroteios, como quase sempre, virar algo diferente do que até então éramos, continuando profundamente os mesmos. Essa foi sempre a nossa sina, não é mesmo? Mas a República trouxe novidades importantes, e é isso que talvez não seja suficientemente apreciado por nós, que a recebemos pronta, pelo menos do jeito que ela foi concebida. Ela era uma intenção modernizante, que deu de cara com a realidade do imutável, mas ainda assim implantou a separação entre a igreja e o estado, criou o casamento civil e promoveu o sistema métrico decimal. Antônio Conselheiro achava isso tudo coisa do demônio e se insurgiu contra a república, ou algo assim. Mais ou menos como atuam em 2010 o Silas Malafaia, Wellington Jr e Marina Silva, quem diria.
A nossa transformação em república se deu mais ou menos do jeito que tinha que dar, mudança de embalagem, muito mais do que do produto e isso continuou ao longo do século 20, até chegarmos a 1988, uma constituição com elementos importantes e que merecem ser melhor pensados e avaliados, se vamos compreender o que realmente acontece conosco.
E, lendo o primeiro-ministro de Portugal no seu texto “Meu Brasil é com S”, publicado na Folha de SP nesse dia 14, penso que, com duas eleições vencidas, com a Constituição de 88 e o legado de Ulysses Guimarães nas costas, Lula é o fundador da primeira república brasileira com cara e jeito de república brasileira. Pela primeira vez na nossa história um número de brasileiros em condições de participar efetivamente da vida do país é maior do que o número que ainda fica de fora do processo, ou, pelo menos, do mercado. Pela primeira vez sentimos que a vida institucional é mais forte do que os interesses ou desejos de grupos, sejam eles quais forem. Pela primeira vez vivemos uma certa normalidade com nosso habitat, e acreditamos que essa normalidade será preservada ao longo dos próximos tempos. Pela primeira vez a república parece mais forte do que as demais alternativas, e a vida dentro das regras republicanas, algo a ser vivido. Também é a primeira vez que o Brasil vive uma época de crescimento econômico, combate real à pobreza com reais perspectivas de sairmos ganhando, de inflação sob controle, moeda estável e o exército dormindo. Criamos o maior sistema do mundo de energia renovável e a gente nem se dá conta, de tão normal que parece. Encontramos muito, mas muito petróleo a sete quilômetros de profundidade e a trezentos da costa, e achamos que não fizemos mais do que a obrigação.
Há apenas umas décadas, nossas maiores conquistas se resumiam a copas do mundo, estimados leitores.
Pois hoje, 15 de novembro de 2010 me deu vontade, pela primeira vez na minha longuíssima existência, de festejar a nossa República. Fiz um churrasco na minha laje aqui em Pinheiros e não convidei ninguém, porque queria curtir o momento em silencio.
Para um brasileiro da minha geração, é estranha a sensação de poder celebrar algo tão complexo e inestimável quanto uma república toda nossa, uma forma de viver a nação na qual a nação ganha crescentemente poder, enquanto cresce.
É isso que eu festejo, embora os meus vizinhos não façam idéia do que seja. É isso que proponho a todos que pensem, reflitam, e, se acharem que vale a pena, celebrem. O dia de hoje, e olhem que eu não sentia nada disso por muitos e muitos anos, é nosso.
E vamos em frente, consolidar o que precisa ser melhor pensado e desenhado, contra os que querem o mundo como ele era antes de 1889, do mesmo e velho e cansado jeito de sempre.
domingo, 14 de novembro de 2010
As crianças, a modernidade e outras coisas...

Estava navegando por aí e resolvi dar uma atracada no blog da Rosely Sayão. Pelo que pude ver, faz tempo que ela não posta nada novo lá. Mas os textos já postatos sempre revelam algo de extremamente elucidativo, mesmo quando lidos pela milésima vez (exagero!). Como mãe e professora que sou, fico extremamente feliz ao ler coisas deste tipo:
"Decidimos colocar as crianças sob intensa pressão: elas precisam aprender a se comportar assim que os pais ensinam, elas precisam gostar de estudar e ter êxito na escola, elas devem aproveitar bem o que os pais lhe oferecem e demonstrar gratidão por isso e, principalmente, corresponder à expectativa de sua família.
Mas criança não aprende de primeira e, mesmo depois que aprende algo, irá transgredir e desafiar; criança gosta mesmo é de brincar, e não de estudar; criança acha que os pais têm obrigação de lhe dar tudo o que ela quer; criança não tem autocontrole e gosta de experimentar.
Num mundo em que a infância está desaparecendo e em que os adultos teimam em parecer juvenis, é quase uma impertinência a criança se comportar como tal, dar trabalho, exigir paciência e persistência dos adultos que a educam.
E é por essa razão que, todos os dias, muitas crianças sofrem: apenas porque são crianças e os adultos se impacientam com isso. Hoje, alguns comportamentos delas são considerados síndromes, doenças, desajustes que exigem cuidados especializados e medicação.
Há muitas maneiras de se maltratar uma criança. Uma delas é não suportar que ela se comporte como criança."
Feliz por saber que existem portas e pessoas que as constróem através de suas reflexões para que possamos sair desse mar lamacento em que nos encontramos hoje. Temos MUITA informação, mas não sabemos o que fazer com ela. Temos muitas referências, mas poucas realmente sólidas. Estamos perdidos e cada vez mais adoecemos de "modernidade". Construção típica de nossa sociedade "moderna", achamos que temos que correr o tempo todo atrás da máquina, sem percebermos que esta máquina é na verdade uma esteira e que no final das contas (ou da vida, na pior das hipóteses) nunca saímos do mesmo lugar em que estávamos desde o início.
Acredito que o conhecimento esteja se revelando de forma muito mais intuitiva do que racional. É só "fechar os olhos e deixar o corpo ir no ritmo", como já dizia Lulu Santos. É só ouvir o som da máquina girando sob nossos pés. E depois, pular dessa "racionalidade" maluca e doentia, respirar fundo e andar com as próprias pernas, cabeça, coração e todo o resto... Enfim, temos muito o que aprender com as crianças!
sábado, 13 de novembro de 2010
Sobre atual encontro do G20
Excelente!!! Tava no Opera Mundi, mas eles tiraram do Asia Times On line com tradução da Carta Maior.
Mas... isso lá é “declaração”, G-20?!
Nunca antes se viu pior “declaração”, dentre todas as horríveis “declarações” do Grupo dos 20 (G-20). Tudo o que se precisa saber sobre o “alívio quantitativo” do Federal Reserve aos EUA, as guerras da moeda e o tsunami de lama que ameaça o sistema financeiro global encontra-se no vídeo de RAP distribuído pela Next Media Animation de Taiwan:
Se, pelo menos, tivessem acertado o “making of” da reunião do G-20 essa semana em Seul. A reunião foi divulgada como ampla manifestação de antiprotecionismo, de apoio à recuperação da economia global, com ideias pra diminuir os problemas galopantes dos déficits e das dívidas. A reunião está acontecendo na quinta e na sexta, mas a declaração final já era o principal problema desde a quarta-feira. E que cena de luta vale-tudo na lama saiu-nos a tal declaração!
Afinal, depois de muito suor, apareceu um rascunho da declaração, declarando que os países devem deixar que o mercado determine o valor da moeda e devem “abster-se de qualquer desvalorização competitiva” (referência velada aos EUA). Mas até o último minuto os assessores-gurus – com fino faro para escolher a rota de fuga mais segura, e cujo trabalho explica por que a conclusão sempre é trivial, nessas reuniões de cúpula – ainda mantinham entre parênteses formulação alternativa: “subvalorização competitiva” (referência velada à China).
Como prêmio de consolação atirado à opinião pública global, foi emocionante ver os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – e a União Europeia (UE) avançarem para o procênio e manifestarem o desejo (quase unânime) político de que as nações não adotem políticas (como fizeram EUA-FED, na segunda rodada de quantitative easing, ou QE2) que gerem conflitos com outras economias nacionais.
Há dias, todos os bancos centrais do mundo pediam que o FED falasse com clareza sobre a tal segunda rodada de quantitative easing, QE2. Crer que os países do G-20 aceitariam alegremente o convite do presidente Barack Obama dos EUA, para que todos engolissem um segundo tsunami de papel verde, para os quais os EUA não podem oferecer qualquer garantia, é habitar o país de Oz. Não surpreende que todos os diplomatas tenham repetido, mais ou menos irritadamente, que aquela reunião bem podia chamar-se “reunião do G-19 a 1”.
Para mostrar como sucesso do G-20, só restou a aterradora promessa de que o muito execrado FMI (Fundo Monetário Internacional) deverá monitorar o que o G-20 fizer (o FMI delira agora que uma ação coordenada dos países do G-20 para “salvar” a economia mundial pode gerar 52 milhões de empregos no médio prazo). Para não dizer que Washington recusa-se a promover o “ajuste estrutural” que seu queridinho, o FMI, sempre conseguiu impor a todos os seus outros pacientes doentes de déficit orçamentário terminal.
O novo exército-modelo
E por que seria diferente? Considere-se a carta que Obama enviou aos líderes do G-20, antes do encontro. Tentou convencer os outros 19 de que os EUA mantêm seu “compromisso de não subvalorizar moedas por interesses competitivos” –, quando todos já praticamente berravam aos quatro ventos que QE1 e QE2 são, exatamente, subvalorizar o dólar. Na carta, Obama praticamente jogou a culpa pela crise financeira de 2008 sobre a China e os mercados emergentes. E, ao defender a ação do Fed, na Índia, na 2ª-feira passada, Obama disse, sim, que o que é bom para os EUA é bom para o mundo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil foi, certamente, quem achou o tom mais ponderado para responder a Obama. Os bancos centrais europeus, furiosos, já acusavam os EUA de “traição”. Lula sugeriu que os países BRICs poderiam usar menos o dólar no comércio entre eles – o que, precisamente, já estão fazendo.
É do conhecimento até do reino mineral que, quando os EUA, no governo de Nixon, em 1971, declararam unilateralmente o fim do padrão-ouro para o dólar norte-americano, decretou-se a morte do sistema de Bretton Woods introduzido no final da II Guerra Mundial. Daquele momento até hoje, se assiste ao interminável coma do sistema monetário global.
Washington/Wall Street adotou a lei da selva (“nenhum prisioneiro vivo”) –, de infindável manipulação do dólar norte-americano como moeda global de reserva. Para nações emergentes, a única reação possível é coordenar um programa de investimentos em obras públicas para garantir emprego e renda nos respectivos mercados internos e proteger as respectivas indústrias locais.
Interessante comparar a atual situação e o que houve no tempo de Franklin Delano Roosevelt. Para reverter a Grande Depressão, o Estado assumiu o controle da economia nos EUA. O presidente Roosevelt não recorreu “aos mercados”: construiu e lançou um pacote desenvolvimentista – obras públicas combinadas com assistência social.
Há real impasse no G-20, e é absoluto nonsense a retórica dos EUA, de reivindicar a posição de coordenador global para derrotar a crise: a única meta que interessa e mobiliza Washington/Wall Street hoje é esmagar qualquer alternativa política ao seu novo ajuste unilateral. Michael Hudson, da University of Missouri, já explicou, numa linha: “O sistema financeiro e os bancos norte-americanos, como novo exército-modelo, lançaram um raid contra todas as moedas estrangeiras.”
Ainda é a “dominação de pleno espectro”, estúpido
Então, o que acontecerá nos EUA depois desse QE2 e desse G-20? Business como sempre – quer dizer, a volta a pleno vapor, sob os auspícios de um Congresso dominado pelos Republicanos nos EUA, da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, menina dos olhos do Pentágono. Os Republicanos tentarão histericamente cortar todos os gastos orçamentários que lhes apareçam pela frente – exceto o orçamento da Guerra Infinita.
Assim sendo, acabou-se a “lua de mel” com a China. A China, mais do que jamais antes, verá firmada sua posição de número 1 da lista de inimigos/concorrentes estratégicos do Pentágono. A pergunta incomodamente quantitativa de um trilhão de dólares continua a ser: como, em que termos e até quando Pequim aceitará continuar a financiar, em tempo integral, a construção da aterrorizante máquina de guerra de Washington.
A plutocracia de Washington/Wall Street estimulada pela Doutrina da Dominação de Pleno Espectro interpretará a viagem de Obama à Ásia como útil, sobretudo, para prevenir a China de que os EUA planejam continuar a ser superpotência também asiática. A Índia – parceira nuclear dos EUA – foi engambelada até o fim dos tempos. E também a Indonésia. Aqueles 40 mil soldados dos EUA no Japão, mais a base de Okinawa, além dos 28 mil soldados dos EUA na Coreia do Sul ficarão exatamente onde estão.
A situação interna dos EUA – com o que possa haver de pior, da total debacle das camadas médias ao surgimento de tendências fascistas – absolutamente não tira o sono da plutocracia de Washington/Wall Street eletrificada pela Teoria da Dominação de Pleno Espectro.
Quanto ao G-20, o fundo do poço é mais embaixo: nada conseguirá impedir que o dólar norte-americano continue em queda livre. Os americanos médios viverão com salários e preços de casas igualmente despencados. A China não aprenderá a lição. O yuan de fato já vem sendo valorizado desde 2005: de 8,2 por dólar norte-americano, para 6,6; e se valorizará mais 15% até 2015 – pelo cronograma fixado por Pequim, não por Washington.
A América do Sul, com sua corte de governos progressistas, agora com muito melhores capacidades de coordenação, talvez mostre ao mundo como se dança o baião da integração e como escapar da ditadura do dólar norte-americano, negociando em moedas regionais. O ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, tem dito em alto e bom som o que muitos sussurram pelos cantos: acabou-se a era do dólar norte-americano como moeda de reserva. A tendência é constituir-se uma cesta de moedas. Os BRICs operarão de forma cada vez mais coordenada. E, com a China liberando o mercado offshore do yuan, mais cedo ou mais tarde o dólar Hong Kong-EUA será história.
A França está próxima de abocanhar a presidência do G-20. Não é segredo para ninguém que o megacontestado, megaimpopular, micronapoleão e macronarcísico Nicolas Sarkozy detonará todos os obstáculos para chegar ao trono do G-20 da “Bretton Woods II de Sarkozy” em Paris, ano que vem, quando então salvará o planeta e, de quebra, a própria reeleição na França, em 2012.
Aí está novelão cujo desfecho temos de esperar. Alé lá, só o RAP salva. “From the Mao to the Deng to the Jiang to the Hu/ You think you can keep on telling us what to do...”
Mas... isso lá é “declaração”, G-20?!
Nunca antes se viu pior “declaração”, dentre todas as horríveis “declarações” do Grupo dos 20 (G-20). Tudo o que se precisa saber sobre o “alívio quantitativo” do Federal Reserve aos EUA, as guerras da moeda e o tsunami de lama que ameaça o sistema financeiro global encontra-se no vídeo de RAP distribuído pela Next Media Animation de Taiwan:
Se, pelo menos, tivessem acertado o “making of” da reunião do G-20 essa semana em Seul. A reunião foi divulgada como ampla manifestação de antiprotecionismo, de apoio à recuperação da economia global, com ideias pra diminuir os problemas galopantes dos déficits e das dívidas. A reunião está acontecendo na quinta e na sexta, mas a declaração final já era o principal problema desde a quarta-feira. E que cena de luta vale-tudo na lama saiu-nos a tal declaração!
Afinal, depois de muito suor, apareceu um rascunho da declaração, declarando que os países devem deixar que o mercado determine o valor da moeda e devem “abster-se de qualquer desvalorização competitiva” (referência velada aos EUA). Mas até o último minuto os assessores-gurus – com fino faro para escolher a rota de fuga mais segura, e cujo trabalho explica por que a conclusão sempre é trivial, nessas reuniões de cúpula – ainda mantinham entre parênteses formulação alternativa: “subvalorização competitiva” (referência velada à China).
Como prêmio de consolação atirado à opinião pública global, foi emocionante ver os BRICs – Brasil, Rússia, Índia e China – e a União Europeia (UE) avançarem para o procênio e manifestarem o desejo (quase unânime) político de que as nações não adotem políticas (como fizeram EUA-FED, na segunda rodada de quantitative easing, ou QE2) que gerem conflitos com outras economias nacionais.
Há dias, todos os bancos centrais do mundo pediam que o FED falasse com clareza sobre a tal segunda rodada de quantitative easing, QE2. Crer que os países do G-20 aceitariam alegremente o convite do presidente Barack Obama dos EUA, para que todos engolissem um segundo tsunami de papel verde, para os quais os EUA não podem oferecer qualquer garantia, é habitar o país de Oz. Não surpreende que todos os diplomatas tenham repetido, mais ou menos irritadamente, que aquela reunião bem podia chamar-se “reunião do G-19 a 1”.
Para mostrar como sucesso do G-20, só restou a aterradora promessa de que o muito execrado FMI (Fundo Monetário Internacional) deverá monitorar o que o G-20 fizer (o FMI delira agora que uma ação coordenada dos países do G-20 para “salvar” a economia mundial pode gerar 52 milhões de empregos no médio prazo). Para não dizer que Washington recusa-se a promover o “ajuste estrutural” que seu queridinho, o FMI, sempre conseguiu impor a todos os seus outros pacientes doentes de déficit orçamentário terminal.
O novo exército-modelo
E por que seria diferente? Considere-se a carta que Obama enviou aos líderes do G-20, antes do encontro. Tentou convencer os outros 19 de que os EUA mantêm seu “compromisso de não subvalorizar moedas por interesses competitivos” –, quando todos já praticamente berravam aos quatro ventos que QE1 e QE2 são, exatamente, subvalorizar o dólar. Na carta, Obama praticamente jogou a culpa pela crise financeira de 2008 sobre a China e os mercados emergentes. E, ao defender a ação do Fed, na Índia, na 2ª-feira passada, Obama disse, sim, que o que é bom para os EUA é bom para o mundo.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, do Brasil foi, certamente, quem achou o tom mais ponderado para responder a Obama. Os bancos centrais europeus, furiosos, já acusavam os EUA de “traição”. Lula sugeriu que os países BRICs poderiam usar menos o dólar no comércio entre eles – o que, precisamente, já estão fazendo.
É do conhecimento até do reino mineral que, quando os EUA, no governo de Nixon, em 1971, declararam unilateralmente o fim do padrão-ouro para o dólar norte-americano, decretou-se a morte do sistema de Bretton Woods introduzido no final da II Guerra Mundial. Daquele momento até hoje, se assiste ao interminável coma do sistema monetário global.
Washington/Wall Street adotou a lei da selva (“nenhum prisioneiro vivo”) –, de infindável manipulação do dólar norte-americano como moeda global de reserva. Para nações emergentes, a única reação possível é coordenar um programa de investimentos em obras públicas para garantir emprego e renda nos respectivos mercados internos e proteger as respectivas indústrias locais.
Interessante comparar a atual situação e o que houve no tempo de Franklin Delano Roosevelt. Para reverter a Grande Depressão, o Estado assumiu o controle da economia nos EUA. O presidente Roosevelt não recorreu “aos mercados”: construiu e lançou um pacote desenvolvimentista – obras públicas combinadas com assistência social.
Há real impasse no G-20, e é absoluto nonsense a retórica dos EUA, de reivindicar a posição de coordenador global para derrotar a crise: a única meta que interessa e mobiliza Washington/Wall Street hoje é esmagar qualquer alternativa política ao seu novo ajuste unilateral. Michael Hudson, da University of Missouri, já explicou, numa linha: “O sistema financeiro e os bancos norte-americanos, como novo exército-modelo, lançaram um raid contra todas as moedas estrangeiras.”
Ainda é a “dominação de pleno espectro”, estúpido
Então, o que acontecerá nos EUA depois desse QE2 e desse G-20? Business como sempre – quer dizer, a volta a pleno vapor, sob os auspícios de um Congresso dominado pelos Republicanos nos EUA, da Doutrina da Dominação de Pleno Espectro, menina dos olhos do Pentágono. Os Republicanos tentarão histericamente cortar todos os gastos orçamentários que lhes apareçam pela frente – exceto o orçamento da Guerra Infinita.
Assim sendo, acabou-se a “lua de mel” com a China. A China, mais do que jamais antes, verá firmada sua posição de número 1 da lista de inimigos/concorrentes estratégicos do Pentágono. A pergunta incomodamente quantitativa de um trilhão de dólares continua a ser: como, em que termos e até quando Pequim aceitará continuar a financiar, em tempo integral, a construção da aterrorizante máquina de guerra de Washington.
A plutocracia de Washington/Wall Street estimulada pela Doutrina da Dominação de Pleno Espectro interpretará a viagem de Obama à Ásia como útil, sobretudo, para prevenir a China de que os EUA planejam continuar a ser superpotência também asiática. A Índia – parceira nuclear dos EUA – foi engambelada até o fim dos tempos. E também a Indonésia. Aqueles 40 mil soldados dos EUA no Japão, mais a base de Okinawa, além dos 28 mil soldados dos EUA na Coreia do Sul ficarão exatamente onde estão.
A situação interna dos EUA – com o que possa haver de pior, da total debacle das camadas médias ao surgimento de tendências fascistas – absolutamente não tira o sono da plutocracia de Washington/Wall Street eletrificada pela Teoria da Dominação de Pleno Espectro.
Quanto ao G-20, o fundo do poço é mais embaixo: nada conseguirá impedir que o dólar norte-americano continue em queda livre. Os americanos médios viverão com salários e preços de casas igualmente despencados. A China não aprenderá a lição. O yuan de fato já vem sendo valorizado desde 2005: de 8,2 por dólar norte-americano, para 6,6; e se valorizará mais 15% até 2015 – pelo cronograma fixado por Pequim, não por Washington.
A América do Sul, com sua corte de governos progressistas, agora com muito melhores capacidades de coordenação, talvez mostre ao mundo como se dança o baião da integração e como escapar da ditadura do dólar norte-americano, negociando em moedas regionais. O ministro da Fazenda do Brasil, Guido Mantega, tem dito em alto e bom som o que muitos sussurram pelos cantos: acabou-se a era do dólar norte-americano como moeda de reserva. A tendência é constituir-se uma cesta de moedas. Os BRICs operarão de forma cada vez mais coordenada. E, com a China liberando o mercado offshore do yuan, mais cedo ou mais tarde o dólar Hong Kong-EUA será história.
A França está próxima de abocanhar a presidência do G-20. Não é segredo para ninguém que o megacontestado, megaimpopular, micronapoleão e macronarcísico Nicolas Sarkozy detonará todos os obstáculos para chegar ao trono do G-20 da “Bretton Woods II de Sarkozy” em Paris, ano que vem, quando então salvará o planeta e, de quebra, a própria reeleição na França, em 2012.
Aí está novelão cujo desfecho temos de esperar. Alé lá, só o RAP salva. “From the Mao to the Deng to the Jiang to the Hu/ You think you can keep on telling us what to do...”
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